terça-feira, 1 de maio de 2012

O dilema Pingo Doce

Dizem os sindicatos que os trabalhadores da Auchan, Continente e da Jerónimo Martins foram pressionados para trabalhar hoje, dia 1 de Maio, Dia do Trabalhador.
O meu avô sempre disse, num misto de ironia e de amargura, que este era um dia que, por natureza, os trabalhadores deviam trabalhar, pois se era o seu dia. Eu dizia que não, que tinham de comemorar as conquistas feitas, os direitos adquiridos.
Hoje, o Pingo Doce tem uma promoção irrecusável: nas compras a partir de 100 euros, o cliente paga metade do que gastar. Não é dinheiro guardado num cartão para gastar na semana seguinte, como no Continente, que nos deixa presos a consumir só ali.
De manhã ligam-me a dar conta da fila no Pingo Doce de Telheiras, gente à porta desde as quatro da manhã, disposta a gastar 800 euros para trazer 1600 de compras; no Pingo Doce de Loures, a fila do peixe tinha 180 números à espera. À minha porta, no pequeno Pingo Doce do bairro há famílias inteiras com carrinhos cheios de fraldas, papel higiénico e leite. Gente feliz, sorridente.
O meu filho está verdadeiramente zangado comigo porque não estamos dentro de um supermercado a encher carrinhos de compras. "Pois não, nós estamos já a perder direitos e salário, o desemprego passa dos dois digitos. Neste dia não compramos. Eu quero que, quando chegares ao mercado de trabalho, tenhas direitos. Não quero que regressemos ao século XIX."
Ele não percebe como é que estou a deixar passar uma promoção destas e "os trabalhadores vão ganhar mais porque trabalham no feriado, não percebes? É bom para eles.", reage.
"Percebo que vivemos uma grave crise económica que é também de valores, que vale tudo para continuarmos a consumir; que os hipermercados são os grandes responsáveis pelas importações, pelo desequilibrio da balança comercial; que criam muitos postos de trabalho com salários baixos e horários que impossibilitam às mulheres serem mães; que não produzem verdadeira riqueza como uma fábrica que exporte; que são responsáveis pela falência de pequenas empresas de produtores e distribuidores porque demoram demasiado tempo a pagar-lhes. Portanto, eu não vou ao supermercado no dia do trabalhador."
"Estás a tornar-te numa 'comuna'...", diz-me num insulto velado. Aprendeu a palavra 'comuna' com a sua avó, a minha mãe, filha do meu avô.
"Essa palavra não existe! Já nem os velhos a usam... Estou somente preocupada com o vosso futuro."
"Então vai às compras, para termos dinheiro para gastar noutras coisas!", responde.
"Não vamos retomar esta conversa!"
"Porque não tens argumentos válidos!"
"Porque precisas de ir estudar."
"Então, não é o dia do trabalhador? Os trabalhadores devem comemorar os seus direitors, etc, etc..."; desafia-me.
"Exactamente, não é o dia do estudante! Vai estudar!"
BW

19 comentários:

  1. Tem toda a razão. E eu, mea culpa, fui hoje ao Continente do meu bairro, porque estava sem nada em casa para o almoço, o jantar e o pequeno almoço de amanhã... Tinha alternativa? Tinha: 1) ir à mercearia/loja de conveniência, que está sempre aberta, até no dia de Natal... 2) Planear melhor as compras - precisamente, não o fiz... e senti-me culpada ao explicar ao meu filho mais novo, que me acompanhou, que nem sequer devíamos estar ali, porque aqueles senhores deviam estar em casa a descansar...

    Enfim, para o ano planearei melhor, de certeza!

    marta l.

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    1. Sem duvida! O Pingo Doce e os outros , mas em especial o Pingo Doce devia ter vergonha desta campanha. Porque nao foi ajudar de certeza quem vive com os miserios 200 e poucos Euros de pensão. Esses nao tem 100 Euros para gastar num dia em promoções.
      O acto do Pingo Doce foi um acto de generosidade , mas para os cofres do Pingo Doce , nao foi para os necessitados. Ja para nao falar no trabalho extra que os seus colaboradores tiveram no dia do trabalhador. Mas enfim cada povo tem o que merece, ainda ha pouco tempo havia quem fizesse boicote ao Pingo Doce por ter sediado a firma na Holanda, de certeza que hoje foram para as filas esperar 3 horas para pagar:)

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  2. O Domingo também é o dia da Família e não é por isso que está tudo fechado Portugal fora.
    Esse seu comentário é uma antítese total, disse ao seu filho que era errado estar no hipermercado pois os seus funcionários não deveriam de estar a trabalhar no dia de hoje, mas já não lhe disse que os 3 funcionários da «mercearia da esquina» também não o deveriam estar a fazer...
    Já agora porque não fechar todas as empresas/instituições em Portugal ? Os unicos sitios que deveriam de estar abertos eram os lares, já que os pobres velhos são os únicos que não trabalham em Portugal... (E os centros de emprego também!)
    Não vamos ser assim tão radicais (ok ???)

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    1. Ao domingo também não vou às compras. BW

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    2. na mercearia da esquina trabalha uma família dona da mercearia. eu também trabalho em qualquer dia, desde que tenha prazos para cumprir com urgência -sou trabalhadora independente. quem não pode escolher, porque não é dono, nem independente, e ainda por cima ganha mal, são os assalariados...
      marta l., lisboa

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  4. amigo, estes supermercados é que dão aos clientes os descontos, valeu a pena ir lá.

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  5. Excelente texto.
    Linkei, com o devido respeito.

    Jorge Lemos

    http://www.facebook.com/profile.php?id=1761206380&ref=ffl&__att=iframe#!/profile.php?id=796240480

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  6. atiram-lhes um osso ... e a turba esfaimada, agarra-se a ele como se a vida dependesse disso, ... é triste!

    o que faz falta é ... valores, princípios, humildade (não confundam com miserabilismo) ... enfim civilidade!

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  7. Concordo plenamente com o que diz e fez!
    Eu também não fui à promoção aliciante do Pingo Doce por opçção própria e apesar de não ter a dispensa cheia neste momento, sinto-me muito bem comigo mesma.
    O dia 1 de Maio simboliza o dia em que o trabalhador conquistou os direitos que hoje temos, direitos que damos como adquiridos mas que em alguns países estes ainda não existem, direitos esses que novamente estamos a perder...
    Foi com tristeza que passei o dia do trabalhador, com notícias de trabalhadores "forçados" a trabalhar sob ameaças, golpes de marketing tão óbvios mas que ainda assim cegam as pesssoas, gente a lutar por comida ao ponto de se baterem.
    Nos que nos tornámos?
    Não foi uma simples promoção nem mais um 1º de Maio, foi sim o verdadeiro destapar da panela onde ficámos a ver quem comanda e quem é comandado.
    Tal como o futebol cala um país em tempo de crise, lancem um desconto e calam-se todas as bocas de protesto.

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  8. Tão bem escrito.
    Obg pela partilha

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  9. De facto é uma opinião bem escrita e fundamentada. De facto há que celebrar as conquistas feitas pelos trabalhadores mas penso já estarmos bem longe do tempo de escravidão, porque de facto, quem trabalha em feriados recebe mais. Excepto eu! Que ainda trabalho num ramo (restauração) em que as pessoas pensam que a conta é feita só pelo que se come e bebe sem contar encargos fiscais e de trabalhadores. Isso de só se lembrarem dos trabalhadores no dia 1 de Maio é muito infeliz quando depois me dizem com voz muito a lamentar "aii, então não vão estar abertos no Natal?" ou quando em todos os feriados querem é andar a correr shoppings, tomar um cafezito ou até fazer uma refeição fora com a família e depois se esses sítios estão fechados ainda levam uma roda de "preguiçosos"...enfim...sem mencionar sítios como hospitais, lares, polícia que não poderão nunca despender de trabalhadores em nenhum desses dias. Parece-me a mim que defender ferozmente o 1 de maio é um bocado hipócrita se ignorarmos todos os outros feriados que, de pessoa para pessoa, terão mais ou menos importância. Aliás, não se esqueçam que, até para estarem em casa, sem consumir, simplesmente a ver TV ou ouvir rádio, muitas pessoas tiveram que trabalhar. E esta hein?

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    1. Bom, está a falar com uma jornalista. Eu trabalho aos sábados, domingos e feriados, trabalho sempre no dia 1 de Janeiro, dia da paz. Se for preciso trabalho no 1.º de Maio porque os jornais saem todos os dias, excepto no dia 25 de Dezembro e no dia 1 de Janeiro, mas no dia 26 de Dezembro e dia 2 de Janeiro já saem, logo, é preciso alguém para os fazer. Trabalho mais horas, se for preciso. Aqui não se tratava de uma defesa feroz e hipócrita do 1.º Maio, tratava-se de uma lição e de algo que considero importante transmitir aos meus filhos. Tratam-se de valores - não ao consumo desenfreado e louco, respeita os outros que têm os mesmos direitos que tu - e de consciência política. Nada mais. BW

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  10. Boa tarde. Encontrei este blog por acaso e não pude deixar de responder.

    Ora eu não fui ao pingo doce porque não soube da promoção a tempo. Senão podem ter toda a certeza que tinha ido, porque os cerca de 50 euros que tenho para gastar em comida até ao fim do mês (acabei hoje a última lata de atum da minha despensa) bem que me tinham servido para compras no valor de 100. Assim, paciência. Não quer dizer que concorde com o que moveu esta iniciativa. Quer dizer que na base de qualquer necessidade que precise de ser satisfeita, estão necessidades fisiológicas. Ainda bem que você teve a opção pessoal de não aproveitar.
    Mas se queria realmente ensinar ao seu filho o que significa o 1º de Maio, em vez de tentar explicar-lho, ficando em casa, devia ter saído para a rua, manifestando-o publicamente, como centenas de pessoas o fizeram, incluindo eu.

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    1. Desde o 1.º de Maio de 1975 que vejo passar a manifestação da CGTP à minha porta. Vi as ceifeiras trazidas em camionetas do Alentejo para a Alameda, hoje já não há ceifeiras, há precários. Sabemos os slogans de cor do "A luta continua, Passos para a rua" (vai mudando o governante) ao "é preciso, é urgente, uma politica diferente"; este ano havia um bem engraçado: "Vitor Gaspar falas muito devagar, mas quando abres a boca pareces o Salazar", só não me lembro do ritmo. Quando terminou de passar, fomos ouvir o Arménio Carlos, só um bocadinho, para desmontar as verdades e as mentiras e voltámos para casa. As manifestações são pedagógicas: servem para mostrar que o povo tem direito e liberdade a manifestar-se; que o povo tem razão numas coisas, noutras nem por isso.
      Não é fácil educar os filhos a pensarem por si! O que mais escandalizou o meu filho foi ver crianças de oito/dez anos de megafone na mão, a dar as palavras de ordem. "Isto é igual ao teu amigo que vai com os pais à festa da vitória do Passos", disse-lhe. Concordou. Portanto, só se nao estivermos em Lisboa é que nao vemos a CGTP manifestar-se e até vamos lá comer uma bifana e tudo! Mas isso não faz de nós comunistas, só pais que educam para a diversidade e o respeito pelos outros. BW

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  11. Aposto que se o seu filho partir a cabeça no dia do trabalhador, a senhora não o leva ao hospital para não dar trabalho aos médicos e aos enfermeiros que estão lá a trabalhar. Eles também têm direito ao feriado, certo?

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    1. Certo! Vou esperar pela meia-noite, pelo dia 2 de Maio, comprimindo com toda a força a cabeça do miúdo, mesmo que se esteja a esvair em sangue! Se não é para trabalhar, não se trabalha! E se a meu sogro tiver um ataque de coração deixo-o morrer! E se o meu pai tiver um ataque de asma, idem! Tudo pelos direitos dos trabalhadores! Vê? Não é preciso apostar, tem toda a razão!
      Agora a sério: os hospitais não estiveram a 100%; em todas as áreas fundamentais há serviços mínimos e nada fecha realmente, há sempre gente a trabalhar. Há transportes, electricidade, água, jornais, televisões, etc. Mas no que diz respeito ao consumo, porque é que têm de estar todas as lojas abertas? O que é que é tão urgente comprar a um domingo ou a um feriado que eu não tenha tido tempo para comprar num dia útil? Se as lojas estivessem abertas até às sete, hora a que muitos trabalhadores saem dos seus locais de trabalho, compreendia-se a sua abertura a um dia feriado; mas as lojas estão abertas até às oito (o Pingo Doce do meu bairro está até às nove da noite). Os centros comerciais estão abertos até às 10 ou 11 horas. Não consigo aviar-me até a essas horas? Se formos consumidores previdentes e organizados não precisamos de ir às compras a toda a hora e a todo o instante. BW

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  12. Pessoas que se auto-intitulam inteligentes como a madame Joana G. pertencem ao tempo do chicote e do retrocesso mental.
    Eu acho que foi uma vergonha o que se passou, mas tb acho que foi óptimo a Jerónimo Martins o ter feito. Assim viu-se bem o quão podre a sociedade em que andamos metidos está, e o quão limitado é o cérebro e o pensamento das gentes de Portugal. Antes pobre e com fome e honrado, do que tornado animal e manipulado por gente desta. puff.. seus fracos.

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