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domingo, 4 de março de 2012

As palavras - II

"Mas houve uma menina que gostava como ninguém das praias. Nessa altura já havia a palavra “amor” e todos percebiam que ela amava o mar. Pelo dia fora corria a praia, dançava com os pássaros, brincava com as ondas, escondia-se na areia. Quando à noite ia dormir para casa, cada gesto que fazia cheirava a mar, lembrava o mar.
Mas vieram os frios. O tempo da casa. O tempo do trabalho. Cada vez mais triste, cada vez mais quieta, a menina passava o tempo sentada na praia, sem forças nem alegria tentando meter o mar dentro dela. E chegou o dia em que o pai teve de a ir buscar à praia Também estava triste o pai. E procurou conversar com ela, com as palavras que então havia. Mas ela só chorava. E quando devagarinho o pai lhe pegou ao colo, entre lágrimas nasceu da boca de uma menina a palavra “saudade”. Nessa altura uma grande onda espalhou junto aos dois muitos búzios e conchas. O pai pousou a filha no chão e começaram a apanhá-los. De repente cheio de alegria ele disse à filha uma palavra nova que o seu coração naquele instante lhe ensinara: “recordações”.
E cheios de búzios e conchas entraram, sorrindo, pelo inverno dentro.
Desde então sempre que a palavra “saudade” entristece as mães, os filhos, os homens, eles chamam a correr a palavra “recordações” e devagarinho começam de novo a sorrir.”

Graça Vilhena, Do lado de cá das fadas

sábado, 3 de março de 2012

As palavras I

Antes dos homens não havia palavras. Foram os homens que as inventaram. E não as inventaram todas ao mesmo tempo. É devagar que tem vindo a acontecer.
A palavra “amor” por exemplo como é que terá aparecido?Terá sido uma mãe para adormecer o filho? Ou foi um namorado que queria oferecer à amada a pele de um grande bicho que matara?
E a palavra “sol” quem a terá dito pela primeira vez? Se calhar foi um menino que veio a correr cá fora apanhar um raio de luz e o levou para um quarto escuro.
E as palavras que ainda estão por inventar? Quem as dirá? O que é que nos ensinarão a dizer? Uma coisa é certa, de cada vez que uma palavra nasce a vida torna-se melhor, porque melhor nos entendemos.
Uma história bonita é a da palavra “saudade”. Principalmente porque de mãos dadas com ela apareceu logo outra a seguir, outra que a aquece.
Diz-se que foi assim. São muito antigas as praias. Mais velhas que os homens. Mas sempre foram abertas, azuis, cheias de espaço e luz. E sempre os homens e os seus filhos gostaram de passar nelas todo o tempo que podiam. Até as chuvas e os ventos os empurrarem de volta às suas terras."


Graça Vilhena, Do lado de cá das fadas