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quinta-feira, 9 de maio de 2013

"O meu filho fez o quê???" em Oeiras

A convite da Associação de Pais da Escola Secundária Quinta do Marquês, em Oeiras, apresento O meu filho fez o quê??? em breves pinceladas para deixar mais tempo para a conversa.

No livro advogo que os pais devem conhecer o estabelecimento de ensino antes de matricularem os filhos, mesmo que seja a escola obrigatória para onde as crianças têm de ir impreterivelmente. A visita deve ser feita em tempo de aulas. Uma mãe pergunta-me se eu acho exequível que os pais vão todos à escola e dá-me um exemplo: se a escola receber mil alunos vão dois mil pais à escola? E em tempo de aulas?
Nunca vão dois mil pais à escola! Vai meia dúzia e nem sequer vai no mesmo dia... E não é difícil a uma escola recebê-los desde que esteja à espera deles, respondo.
A escola pode não ter essa disponibilidade e a directora da secundária explica-me e aos pais como faz: raramente recebe pais, mas quando pedem, acede. Só que se forem mais pode não conseguir por falta de tempo.

Mais à frente, foco a importância de falar com os filhos sobre o regulamento da escola, o estatuto do aluno e de lhes fazer ver que há um "cadastro" que os segue enquanto andarem na escola. O ter um "cadastro" pode dissuadi-los de maus comportamentos.
A mesma mãe diz-me que isso de nada serve se eles não estiverem motivados porque além de mãe é professora e diariamente confronta-se com alunos desinteressados que não aprendem nem deixam os outros aprender e dá-me um exemplo concreto que se passou na sua sala de aula.
Tem toda a razão. É verdade. Há miúdos desinteressados e que boicotam, mas é preferível os pais não falarem com eles?

O dilema pai/professor é grande e, naquele encontro aquela mãe pôs a professora sempre em primeiro lugar. Para quê os pais irem à escola? Porque, ao contrário da senhora, nós não estamos na escola todo o dia, não conhecemos os professores, não sabemos o que se passa e queremos saber! Porquê irem em tempo de aulas? Para vermos como é o dia-a-dia de uma escola. Mas não vêem tudo, vêem uns corredores e podem apanhar um dia pior... É verdade, mas ajuda-nos a, pelo menos, conhecer o espaço. O que é preferível: mandar a criança às escuras para a escola nova ou dizer-lhe que tem uma boa biblioteca, uma cantina espaçosa...

Há pais que lembram que nunca puderam passar do portão da escola do 1.º ciclo ou que naquela escola não lhes permitem falar com outro professor que não seja o director de turma, nem conhecer os outros docentes. A directora da escola sente necessidade de defender aquela posição.

No final, a directora agradece o número de pais que participaram na sessão e o interesse que demonstraram. O presidente da associação de pais oferece-me uma lembrança e pede aos pais para participarem, para se envolverem no trabalho que a organização promove, bem como nas acções, tudo em prol dos filhos deles e dos outros, aponta. Dia 24, às 21h, é a vez de Paulo Guinote, informa.

Alguns pais mantiveram-se calados e procuraram-me no fim. A escola está igual ao que sempre foi e não motiva os alunos que revelam o seu desinteresse através do mau comportamento, diz uma mãe. Pois é, foi uma pena não ter dito isso em voz alta!
BW
PS: Muito obrigada à Associação de Pais da Escola Secundária Quinta do Marquês, ao presidente e à sua equipa, de que fazem parte homens e mulheres activos, disponíveis e atenciosos, que organizaram a sala e trouxeram de casa a máquina do café e as caixas com bolachas para atrair os pais! Obrigada a todos, em especial à mãe que foi numa corrida buscar o portátil para fazer a minha apresentação!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A arrogância do saber médico

Acidente desportivo: a nadadora da frente bate-lhe com um pé com tanta força que ela sente os ossos do nariz e da cara a "irem para dentro". Sai imediatamente da piscina e toca de ir para o hospital. Inscrição. Triagem. Como se trata de um trauma está na lista das "urgências mesmo urgentes". São 40 minutos de espera, informa a enfermeira. E são mesmo. É atendida. É mandado fazer um RX. É novamente atendida. Tudo muito rápido depois de 40 minutos de espera.
A pediatra tem dúvidas, por isso sai e vai aconselhar-se com o colega que, aparentemente também tem dúvidas porque nos é pedido para regressar no dia seguinte, para ser vista pelo otorrino.
"O nariz não está partido, pois não?", pergunto. "Não, mas estou aqui com uma dúvida e fico mais segura se ela vier amanhã...", responde a médica. "Mas está com dúvidas porque vê uma sombra no RX, é isso?", tento adivinhar, na esperança que me dê uma explicação. "Tenho uma dúvida, percebe?", repete, ao mesmo tempo que escreve uma carta ao colega de otorrino que irá ver a menina no dia seguinte e a fecha num envelope que me entrega – vedando-me assim o acesso à sua dúvida.
Eu penso, ao mesmo tempo, que recebo o envelope: eu percebo, eu gostava é que a partilhasse comigo as suas dúvidas, mas já vi que não tenho sorte. E se a senhora soubesse o que me irrita dizerem-me "percebe" como se eu fosse ignorante, não o faria...
"Bom, então o que é que aconselha a fazer até amanhã? Mantém o gelo? Faz anti-inflamatório?", pergunto, já com pouca paciência.
"Sim."
São horas de fazer contas. Um episódio de urgência e um RX são 21,50 euros. Ela abre os olhos de escândalo. "21,50 euros? Como é que faz quem não tem 20 euros", pergunta, olhando à volta, para a sala repleta de gente para quem 20 euros podem fazer diferença. "Muitos não pagam porque as crianças ainda são pequenas, outros têm apoios sociais", respondo, seguindo o seu olhar e, discretamente, apontando para as pessoas que estão nas situações que descrevo.
No dia seguinte, volta ao hospital. O otorrino abre a porta da sua sala mas não abre a boca para desejar um "bom dia", abre o envelope, lê a carta, pega num instrumento e espreita para dentro do nariz com tal violência que a miúda se encolhe com dores. "Podes sair", diz lacónico.
"Podes sair? E dizer o que viu? O que é que se passa? Porque é que tivemos de voltar? O que é a sombra? Não há uma palavrinha ao doente e aos pais? Nada?" Nada.
Não me preocupam os 20 euros mas a falta de qualidade do serviço de um hospital que recebe prémios de qualidade – sim, já sei que em breve vamos receber uma factura com o valor real da despesa, que esta ultrapassará os 20 euros e que nos devemos mostrar muito agradecidos ao Estado por nos fornecer aquele serviço por 20 euros porque nem pagamos impostos, nem contribuições.
Mas eu ficava mesmo, mesmo agradecida se os senhores doutores descessem dos seus pedestais de sabedoria e a partilhassem com os comuns mortais. Alguém pode ensinar os futuros senhores doutores, já que os actuais não o sabem, a falarem com as pessoas com normalidade? É que nós não somos todos ignorantes, percebem? E mesmo os ignorantes precisam de uma explicação.
BW

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os reformados, o 1.º de Maio e o 25 de Abril

O 1.º de Maio da CGTP passa sempre à porta de casa. Da varanda, gostamos de ver os trabalhadores a passar. Sabemos as palavras de ordem e repetimo-las, uns anos por brincadeira, este ano por convicção. E alternamos com a rua. "É preciso, é urgente...", dizem os manifestantes, "... uma política diferente!", respondemos do alto. É ponto de honra não gritar "a luta continua".
"Porque é que são todos velhos?" pergunta ela, fotografando a rua. Lá em baixo passa o SPGL e os dirigentes que conheço há década e meia. Dói-me ver um deles, caminha com dificuldades, agarrado a uma colega ou familiar. Era um homem da luta, do terreno, do "vamos a eles!" e ali vai num passo lento, incerto e, de certeza, doloroso, de uma fragilidade imensa. Força, professor!
"Porque é que são todos velhos?" torna a perguntar. "Porque foram eles que fizeram o 25 de Abril", respondo, sem ter a certeza da resposta. "Quer dizer que quando morrerem não vai haver ninguém para desfilar?". "Não, enquanto houver injustiças e desigualdades há-de haver sempre alguém que vai sair à rua", respondo. "Além disso, os reformados têm sido muito prejudicados pelos cortes deste Governo", continuo. "Sim, mas os professores também e estes são todos velhos...", argumenta ela.
Hoje, ao ver a professora Rosário Gama e os seus companheiros da Apre! no Parlamento a cantar o Grândola lembrei-me do 1.º de Maio. Foram eles que fizeram o 25 de Abril, foram eles que lutaram por mais direitos, por mais condições, por reformas dignas. São eles que continuam a lutar pelas suas reformas, sim, pelos seus direitos, sim, mas também pelos nossos. Assunção Esteves está muito enganada quando diz que cantar o Grândola não ajuda a democracia. Ajuda sim, senhora presidente da AR! Ajuda a mantê-la viva neste marasmo que vivemos em que se procura controlar o 25 de Abril com cantares alentejanos nas escadarias do Parlamento ou com alunos nas galerias.
De regresso ao 1.º de Maio, o final do cortejo é dos jovens e dos artistas. Estou sozinha na varanda. "Venham! Venham! Os novos também se manifestam!", grito para dentro de casa e os outros acorrem para dançarmos ao som dos batuques. Depois, saímos à rua para comer sardinhas com os "camaradas". E isto também é democracia.
BW

sexta-feira, 12 de abril de 2013

"Esta crise é cruel"

A frase saiu da boca de uma senhora que estava sentada, lado-a-lado, com a sua empregada fardada, à espera que as crianças saiam da escola. A senhora vai falando sobre a situação do marido. Será um investigador a quem a medida do ministro Gaspar de proibir novas despesas pode ter prejudicado.
A empregada fala do seu filho que tem um projecto que está a concurso numa instituição de ensino superior e que também terá ficado suspenso. "Não sei, com isto do ministro, se calhar já não há concurso...", lamenta.
"Esta crise é cruel", responde a senhora, repetindo a frase pausadamente, como se ela própria a estivesse a assimilar: "Esta crise é cruel."
BW

quinta-feira, 28 de março de 2013

Joana Vasconcelos ou a rainha vai nua


Valquírias

Quem viu a exposição da Joana Vasconcelos no CCB, em Lisboa, em 2010, não precisa de ir ao Palácio da Ajuda ver cães, cavalos, gatos, caranguejos, lagartos ou lagostas de louça Bordalo Pinheiro revestidos com rendas dos Açores. Déjà vu.
Rever as peças mais antigas como a Noiva (o lustre feito de tampões), Marilyn (o sapato feito de panelas) ou Coração Independente (um coração de Viana feito de garfos de plástico vermelhos) é um déjà vu. E sabe a pouco.
Falta a surpresa, embora não falte o humor. Claro que há peças que surpreendem, sobretudo pelo espaço onde foram enquadradas – como A Todo o Vapor – mas, repito, sabe a pouco. Sobretudo quando se vai acompanhada de tão exigentes espectadores:
– Já vi, já vi... – vai dizendo ela, parando em cada sala para ler a informação daquele espaço e passando pelas peças da Joana Vasconcelos como se não as visse.
A todo o vapor
– Não é novo. É sempre a mesma coisa – diz ele, olhando com mais atenção para as miúdas da mesma idade que estão a ver a exposição. 
Na sala de jantar do Palácio estão duas enormes lagostas à mesa, são Bordalo Pinheiro e vestidas com rendas dos Açores. Duas senhoras discutem:
– Estão a preparar-se para nos comerem! – diz uma divertida.
 – Não! Estão a ser preparadas para serem comidas – responde a outra.
«É isto que é maravilhoso quando olhamos para uma peça de arte, para um quadro ou ouvimos uma música, é que cada um de nós pode interpretar como quiser», segredo aos ouvidos dos exigentes espectadores, aproveitando o momento para fazer pedagogia.
– Eu acho que as lagostas estão com frio, senão não tinham aqueles casaquinhos de renda – diz ele, cínico.
Não gostaram, concluem. Soube a pouco, explicam. Gostaram mais da do CCB, tinha mais variedade, peças que surpreendiam e são capazes de as nomear apesar de terem passado três anos.
– E o Lilicóptero? Não é surpreendente? Cheio de plumas de avestruz e cristais Swarovski? E lá dentro, os tapetes eram de Arraiolos! – exclamo.
– Ela deve estar a viver do sucesso que teve em Versailles... – supõe o pai desapontado com a exposição.
– Pois, e quis reproduzir aqui na Ajuda. Olha, só valeu a pena porque assim vimos o palácio – acrescenta ela que gostou de se inteirar dos hábitos de D. Maria Pia.
– Mas não é interessante ver o modo como a Joana Vasconcelos olhou para cada uma das salas e introduziu um elemento surpresa? – insisto.
– Os estrangeiros todos maravilhados com a Joana Vasconcelos em França e agora os portugueses também. É como a história do 'Rei vai nu'. Ai que espectáculo o trabalho da Joana Vasconcelos! Que bom! E depois vamos ver e é igual a tudo o que ela já fez. Ó mãe, as salas debaixo tinham todas um animal com renda dos Açores... Onde é que está o efeito surpresa? – responde ele.
– Ó mano, não é o 'Rei vai nu' é a 'Rainha vai nua'!
Dou-me por vencida e não insisto mais. Ok, são adolescentes, não se deixam deslumbrar como quando eram pequenos, têm a cabeça cheia de outras coisas, mas têm alguma razão. Soube a pouco.
BW

Carmen
PS1: Vale a pena ver a fotogaleria do PÚBLICO!
PS 2: Porque é que a cultura, em Portugal, não deve ser explorada pelos privados? Pela falta de noção do que é serviço público, pela arrogância com que se tratam os espectadores.
1. No site da Everything is New, promotora da exposição da Joana Vasconcelos não há uma palavra sobre horários, mas os preços lá estão, bem visíveis, assim como os locais onde se podem comprar os bilhetes. Portanto, quem não saiba que o Palácio da Ajuda fecha à quarta-feira, em vez de encerrar à segunda como a maior parte dos museus, bate com o nariz na porta. Foi o que nos aconteceu ontem e a mais uma dezena de pessoas (o número foi contabilizado apenas no período de tempo em que estivemos na Ajuda, calculamos que ao longo do dia tenha acontecido a mais gente), todas ao engano. «Mas na revista do Expresso também não dizia que fechava à quarta», queixava-se uma senhora que tinha vindo de longe.
Cansada, uma funcionária do Palácio pedia: «Mas escrevam no livro de reclamações. Estamos fartos de falar com a organização e não fazem nada...».
2. À nossa frente um grupo de jovens, na casa dos 17/18 anos compra bilhetes. Há 50% de desconto para estudantes. «Tem cartão? Desculpe mas tem de pagar o bilhete sem desconto», explica o funcionário. «Ó meu amigo, mas quem é que com esta idade não está na escola?», apetece dizer-lhe. Como o rapaz não se queixa, quem sou eu para comprar as guerras dos outros.
3. A professora na fila ao lado, que quase chora quando conta à amiga que está com horário zero e que não sabe qual vai ser o seu futuro, não tem direito a desconto. «Só se viesse com mais de 20 alunos», explica o funcionário.
4. Chega a nossa vez. Apresento o cartão de jornalista (que em qualquer parte do mundo me dá entrada gratuita ou desconto na compra do bilhete). «Inês, como é com os jornalistas?». A Inês espreita o cartão e diz «Nada. É o bilhete inteiro». «Então são dois adultos e dois estudantes», pedimos. «Têm cartão?». Têm. «Que idades têm?». «Mau! Mas achas que os miúdos têm mais de 25 anos?!», penso irritada. «Se quiserem, há o cartão família por 24 euros... Sempre poupam um euro...», diz. Errado, rapaz, poupamos seis euros.
Noiva
5. O pai para a Inês: «Ontem estivemos cá e a porta estava fechada porque nos vossos sites não há informação sobre o encerramento à quarta-feira. Certamente terá conhecimento desta situação?». «Sim, mas o Palácio fecha à quarta-feira...», responde a Inês displicente – quem é que não sabe?!. «Mas não têm a intenção de pôr essa informação no site? É que nós não fomos os únicos a quem isso aconteceu...». «Sim...», diz a Inês a despachar – ó senhor, não vê que está a empatar a fila!?
6. À nossa frente segue uma mãe e uma avó com dois carrinhos de bebé. Há uma sala escura, com o Jardim do Éden e pode não ser fácil circular com os carrinhos. «Deixaram-vos entrar? Pois... É que a sala é escura e é preciso ter cuidado e como têm os carrinhos... Olha, não me interessa», diz encolhendo os ombros. Eu e o pai entreolhamo-nos. «Não interessa? E se estragam alguma parte da peça? Não interessa à pessoa que está a vigiar?». Assim como não interessa aos funcionários do piso de cima que esteja uma miúda a abrir um contador com a recomendação "não mexer"...

A cultura deve ser financiada pelo Estado para que todos tenham acesso a ela. Os professores que, no dia seguinte, podem levar os seus alunos; os estudantes que vão por sua iniciativa abrir horizontes; as famílias que querem dar mais aos seus filhos e, sim, os jornalistas para que sejam pessoas sempre bem (in)formadas.

domingo, 24 de março de 2013

José Tolentino de Mendonça em entrevista ao PÚBLICO

Este domingo, vale a pena ler na edição impressa a entrevista com o sacerdote e poeta José Tolentino de Mendonça.
Aqui fica um cheirinho:

Escreveu um poema para Bento XVI, já começou a escrever para Francisco?

O Papa Francisco é que começou a escrever um poema para nós e esse eu já comecei a ouvir.

Bom domingo!
BW

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Buona sera...", disse Francisco

Quarta-feira foi um dia bom.
Gostei imediatamente de Francisco quando assomou à varanda e disse "Buona sera, fratelli e sorelle" (não sei se está bem escrito, desculpem). Não disse "que Deus esteja convosco" ou "Caros irmãos", nada disso, falou para os "irmãos e irmãs". Disse que era o "bispo de Roma", repetiu-o umas três vezes, como quem diz que é igual aos outros, ao bispo do Porto, de Bragança... ele é o de Roma. Pediu a benção antes de a dar e inclinou-se. O silêncio na Praça de São Pedro foi maravilhoso e fez-me pensar o quanto é preciso o silêncio para nos recentrarmos no que é importante.
Francisco parece ser simples e humilde. Meteu-se no autocarro com os outros cardeais e regressou à casa de Santa Marta, recusando ir num carro sozinho. Diz que João XXIII, dois dias depois de ser eleito foi aos correios meter umas cartas, deixando a cúria em polvorosa e a guarda suíça preocupada com a sua segurança. Imagino Francisco a fazer o mesmo!
Gosto do nome que escolheu. Lembrou-me imediatamente São Francisco de Assis, a sua coragem em enfrentar os poderes instalados, o amor aos pobres, a importância que deu às mulheres, permitindo que Clara o seguisse.
Horas depois, um amigo envia um SMS com a pergunta: "Assis ou Xavier?" e recordei São Francisco Xavier, o missionário jesuíta (da mesma ordem que o novo Papa), o homem que morreu às portas da China depois de 15 anos de missão pelo Oriente.
Curioso como estes dois Franciscos, tantos séculos depois, podem ser inspiradores e decisivos na agenda papal!
Parece que os restos mortais de Francisco, o vidente de Fátima, foram trasladados para a basílica do santuário no dia 13 de Março de 1952. Mas muito honestamente não me parece que esta criança estivesse nos pensamentos de Jorge Mario Bergoglio quando escolheu o nome de Francisco.

Quarta-feira foi um dia que terminou bem.
No Centro Cultural da Ponte, em Lisboa, um grupo de mulheres acolhe-me com grande hospitalidade. A conversa começa e flui com facilidade. A hora prevista para conversarmos depressa ultrapassa os 60 minutos que se multiplicam por dois, estariamos ali mais tempo a falar sobre jornalismo, sobre o seu futuro, sobre os dilemas e os dramas que o negócio vive. Ao contrário do eng. Belmiro, meu empregador, que não nos conhece e acha que os jornalistas do PÚBLICO escrevem "asneiras" e os seus directores são uns "cagarolas"; naquela sala estavam pessoas que nos conhecem pelo nome que sabem que o Ricardo Garcia escreve sobre Ambiente, que o José Vítor Malheiros sabe tudo sobre ciência, que o Paulo Moura é um repórter de primeira; pessoas que lamentam alguns nomes que foram na leva do último despedimento – não avaliam?, perguntam; pessoas que olham de maneira crítica para o jornal em papel, que são fãs do novo site. Em suma, que respeitam os jornalistas e o jornalismo.
No final, a moderadora oferece "A minha sala de aula é uma trincheira" ao centro e convida-me a fazer uma dedicatória, esqueço-me da data. "Uma data tão importante!", dizem algumas das participantes, referindo-se à escolha do Papa.
Foi a melhor maneira de terminar o dia.
BW

terça-feira, 12 de março de 2013

Ainda o Justin

Na escola, no dia a seguir do concerto:
1. "A M. viu o Justin entrar no Pavilhão Atlãntico!", anuncia a C, ao aproximar-se do grupo de amigas.
"AAAAHHHHHHHHH!!!", grita a B, durante cinco minutos, aos saltos.
"Mas estás a gritar porquê?", pergunta a minha filha à amiga.
"Porque a M. viu o Justin entrar!!!", continua a B, a gritar.
"E então?! Não foi para isso que foi ao concerto?", torna a minha filha.
"Sim! Mas ela viu-o entrar!!!"
"E ele não tinha de entrar para dar o concerto...", relativiza a minha filha, encolhendo os ombros.

2. "A R. tocou-lhe na perna!", informa a C.
"AAAAHHHHHHHH! Foi com que mão? Com que mão?! Nunca mais podes lavar as mãos!!!", diz a B, aos saltos.

No trabalho:
Conta-me a Cláudia Carvalho, jornalista que fez as reportagens antes, durante e após o concerto que o que mais a impressionou foram os miúdos, também há seguidores do sexo masculino, que admitiram sofrer de bullying porque são fãs do Justin Bieber. "Mas não faz mal porque o Justin dá-me apoio, porque eu sei que ele está lá para mim", responderam vários desses miúdos.
É como uma religião? É como um deus?
BW

segunda-feira, 11 de março de 2013

O Bieber não é importante

A reportagem da Cláudia Carvalho diz tudo, mas eu gostava de acrescentar mais uma coisinha!

Ontem à noite estava no aeroporto à hora a que o avião onde vinha o Justin Bieber aterrou. Vinha de Londres, tal como o meu filho. "Se calhar o mano veio no mesmo avião", digo à minha filha, uma "não fã" impressionada com o número de fãs que esperava o cantor de 19 anos.
Na área das chegadas, umas 30 adolescentes. Cantam e o tom sobe quando as portas se abrem ou quando alguém diz saber de qualquer coisa. Há momentos em que se levantam e começam a correr, com ar alucinado, para outras áreas do aeroporto para, de seguida, voltarem ao local de origem e continuarem a cantar.
Finalmente o meu filho e os colegas – que participaram numa prova internacional, representando o país e não ficaram mal classificados –, saem e são surpreendidos com aquela comitiva de miúdas da mesma idade.
"Viram o Justin?"; perguntam algumas, ansiosas.
"Esse panisga?! Não", responde um dos rapazes com um sorriso, fazendo os outros rir.
"Uuuuuhhhhhh!", gritam as miúdas, furiosas, mesmo zangadas, à medida que eles se afastam.
"Ehhh!", grito eu, batendo palmas, na tentativa de reparar tão má recepção.
Abraçamo-los, damos-lhes os parabéns, dizemos-lhes o quanto nos orgulham e o quanto, mesmo sem o país saber, mesmo sem aquelas miúdas saberem, orgulham Portugal. Despedimo-nos e regressamos a casa. No dia seguinte há aulas, mesmo que eles tenham acordado de madrugada, desde sexta-feira, para irem, para treinarem, para fazerem a prova, para voltarem. No dia seguinte há aulas, horários para cumprir, testes para fazer e novos treinos.
As miúdas permanem na sua vigília, à espera que Bieber saia pela mesma porta que os comuns dos mortais. Há pais a acompanhar aquelas meninas, dos 12 aos 15/16 anos, às 22h45 (hora a que chegámos, seguramente que estavam lá há mais tempo) até às 23h30 (hora a que saímos), em véspera de dia de aulas. Há pais a acompanhá-las, frente ao Pavilhão Atlântico, miúdas que estão desde dia 2 à porta do sítio onde o canadiano vai cantar. Estão a faltar às aulas desde então. Há pais que permitem (?) que as miúdas façam tatuagens com o nome do cantor.
Ser adolescente é isso mesmo: excesso! Mas, por vezes, falta a moderação (que não é própria da adolescência); e o sentido do ridículo. Por isso os pais são importantes nestas alturas, não para alimentar a coisa, mas para a moderar e relativizar.
BW


sexta-feira, 8 de março de 2013

Onde estão os livros?

Entro no comboio, sento-me e abro "O meu filho fez o quê???" para terminar a apresentação que tenho de fazer na Póvoa de Lanhoso e em Gaia – faz hoje precisamente uma semana. Escrevinho à mão.
Ao meu lado senta-se um rapaz que saca do iphone e entra no Facebook. Do outro lado do corredor está um senhor no Facebook do ipad. Há computadores ligados por toda a carruagem.
Em Coimbra, o rapaz despede-se e o senhor também. Entram três estudantes que me ladeiam. Não há equipamentos da Apple mas outros mais acessíveis. Um abre o portátil para jogar, o outro para ver um filme com headphones na cabeça. O rapaz que se senta ao meu lado abre um livro de Ciência Política.
Serão os alunos de ciências sociais os últimos leitores, pergunto-me ao observá-lo.
No regresso a Lisboa sucede exactamente o mesmo, iphones e ipads serve para jogar como os gameboys e não para trabalhar ou para ler. Desconhecem que há app de livros?
As novas tecnologias são fantásticas, maravilhosas, ligam-nos ao mundo. Nunca antes estivemos tão ligados, mas nunca antes estivemos tão ausentes e tão acríticos.
BW
PS: O encontro na Póvoa de Lanhoso revelou pais interessados, curiosos, motivados. Parabéns à Associação de Pais da EB1 com JI da Póvoa de Lanhoso e ao agrupamento!

Feliz dia!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Bebidas alcoólicas para maiores de 16 anos: Nada de novo...

O Governo tinha anunciado o aumento para os 18 anos da proibição da venda e consumo de bebidas alcoólicas. Afinal, é só para as bebidas espirituosas, mantendo-se nos 16 anos a idade mínima legal para a compra de vinho e cerveja, a bebida mais consumida nestas faixas etárias.
Portanto: um shot é proibido, mas uma litrada de cerveja, toca de a beber, jovem de 16 anos!
Eu sei que não vale a pena ter leis proibicionistas, que quem quiser beber, vai conseguir fazê-lo. Nada a fazer.
O que me irrita foi ter andado a ouvir o secretário de Estado Leal da Costa a gritar aos sete ventos como era importante e saudável mudar a lei e que tinha de ser, tinha de ser, tinha de aumentar a idade para os 18 anos... E, aparentemente pressionado pela Associação de Produtores de Cerveja e pelo seu presidente Pires de Lima, que é também presidente do conselho nacional do CDS-PP, a montanha pariu um rato. Ou seja, a lei mantém os 16 anos para as bebidas que os jovens mais consomem - a cerveja - e aumenta-se para os 18 o acesso a bebidas espirituosas. De notar, que o vinho e a cerveja também têm álcool, tal como as bebidas espirituosas...
Enfim, o importante é que a indústria não feche, nem crie mais desemprego, queremos lá saber dos miúdos que bebem até cair... Esses, que os pais tomem conta deles e não os deixem sair à rua! A verdade é que eles não bebem só de madrugada, na D. Carlos I, em Lisboa; mas bebem durante o dia. Quantas vezes os vejo, nos supermercados, junto às escolas, a comprar litradas de cerveja à hora do almoço e ninguém lhes pede o cartão de cidadão para confirmar se têm 16 ou 14.
BW

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Passos Coelho e as taxas no secundário

A leviandade com que Pedro Passos Coelho fala das prestações sociais é assustadora.
Para o primeiro-ministro, o peso da Segurança Social, Saúde e Educação na despesa do Estado resolvem-se com uma de duas maneiras: ou se privatiza ou se pede ao cidadão que pague.
Passos Coelho esqueceu-se do óbvio? Que todos pagamos e pagamos cada vez mais e ainda vamos pagar mais em Janeiro? Esqueceu-se daquela coisa chamada impostos que, repito, pagamos e pagamos cada vez mais? Pagamos como os nórdicos, mas somos tratados como se estivessemos sempre em dívida, ou então como se fossemos uns esbanjadores.
As prestações sociais são um dever do Estado e um direito dos cidadãos.
Atenção que eu não me importo de pagar a escola pública, o hospital público e fazer PPR se deixar de pagar impostos. Mas dêem-me essa opção! Agora não me peçam para pagar impostos e pagar taxas moderadoras na escola e no hospital.
O que mais me preocupa é a falta de visão. Se actualmente menos pessoas vão ao hospital por causa das taxas, o que é que Pedro Passos Coelho pensa que vai acontecer se taxar a escola? Se estão a chegar à escola 13 mil crianças com fome, o que vai acontecer quando os pais tiverem de pagar uma propina? Se há alunos do ensino superior a desistir, o que vai acontecer no secundário? É desinvestindo na Educação que vamos sair da crise?
O que é que se passa com esta gente? Porque estão tão apostados no retrocesso civilizacional?
BW

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Pais coragem ou pais loucos?

É-se mais corajoso em 2012 ou em 1975 ou em 1997? É preciso sempre ter uma grande dose de coragem e de loucura para se decidir e ter um filho, seja qual for o ano. O PÚBLICO lançou o desafio e chegou quase uma centena de respostas de pais entusiasmados, felizes, mas também assustados com a decisão que tomaram. Fosse o primeiro filho, o segundo ou o quarto.
Há pais que se atormentam porque nem sempre podem comprar o que desejam; há pais que contam os cêntimos, que recuperaram as toalhitas mesmo de pano e não têm dodots. Há pais coragem que fazem das tripas coração, alguns têm medo, mas não se arrependem, nunca, quando olham para os rostos dos seus filhos.
BW

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Porque devem os pais pôr os filhos a chorar?

Convidado por associações que defendem a família, Gordon Neufeld – psicólogo clínico canadiano e autor do livro Hold on to your kids – só podia fazer uma coisa: defender a família. Mas o discurso de o Estado querer substituir a família e querer educar os nossos filhos parece-me ultrapassado e pouco verdadeiro.
Na vida de todos os dias, sabemos que o Estado está, cada vez menos, preocupado connosco, sejamos crianças, pais, avós ou bisavós; sejamos pobres ou ricos. O Estado quer é ter cada vez menos preocupações connosco. Por isso, Neufeld e todas as associações de família podem descansar porque o Estado não quer os nossos filhos, só quer o nosso dinheiro!
Extraindo o discurso político ouvido, fica o essencial e esse é importante e, como dizia o orador, não é nada que nós não saibamos, só está mais estruturado!
BW

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Estou indecisa quanto a este rapaz...

O corpo, os olhos, o cabelo revelam que é um miúdo. Talvez seja aquele que, esta manhã a jornalista da SIC Noticias dizia ser um menor que fará 16 anos daqui a uns dias. Não sei.
Sei que ontem à tarde, em frente à Assembleia da República, era dos mais activos. Apanhava as pedras, corria para a frente dos polícias e atirava-as e repetia, repetia, mostravam as imagens televisivas.
Nas redes sociais, o rapaz é condenado. Na mochila que traz às costas deve trazer um Ipad, um Iphone, um Iqualquer coisa – dizia alguém. Tem a cara tapada para a mãezinha não o ver, descansada que está ao pensar que ele está na escola – dizia outro alguém.
E eu olho para ele e sim, parece-me um miúdo de bem, daqueles que vão ao futebol e estão nas claques, e vão a concertos. Provavelmente esquecido e mal amado por pais licenciados, quadros superiores, demasiado ocupados a trabalhar para lhe oferecer os Itodos e férias na neve. Mas será?
E eu olho para ele e penso: o que leva um miúdo a pegar em pedras e a atirá-las contra polícias? Será que não sabe que deve respeitar os mais velhos e/ou a autoridade? Porque ninguém lhe deu limites, os estabeleceu? Porque foi deixado demasiado 'à-vontade' pelos pais, convencidos de que é um rapaz responsável? Porque a escola não o ensinou? Será que insulta os professores? Adormece nas aulas porque esteve toda a noite a jogar computador?
Será que as atira porque acredita realmente no anarquismo? Porque é um miúdo envolvido politicamente, interventivo, que acha que esta é a única maneira de lutar?
Ou, será que atira pedras porque sente que não há futuro?
BW