sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pais responsabilizados

Não me parece mal esta ideia, à excepção da palavra do professor prevalecer sobre a do aluno. Preferia que dissessem que a verdade prevalecerá sobre a palavra de seja quem for; quem disse que os professores falam sempre verdade e que os alunos são todos uns grandes mentirosos?
BW

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Viver com medo II

Hoje, logo de manhã, recebi um telefonema, que me dava conta desta história que, horas mais tarde, se tornava uma notícia de jornal. Estava na rua e foi como se me tivessem dado a notícia da morte de um familiar. "Por causa de um boné? A nossa vida não vale nada?"
Há pouco, a minha filha ligou-me, assustada, porque foi interpelada por um rapaz, de boné à banda, que lhe pediu 20 cêntimos para ele e para a "chavala" comprarem bilhetes para o metro. "Vá lá, são 20 cêntimos..."
"Disse-lhe que não ando com dinheiro e ele não me chateou mais. Mas e se me assaltava? Eu não tinha mesmo dinheiro... O T. chegou à escola assustado, estavam uns rapazes a olhar para os ténis e ele achou que o iam roubar, atirou-se para a estrada e atravessou com o sinal vermelho, com medo deles. E fartou-se de correr! Só lhe disse que afinal a Educação Física sempre serve para alguma coisa!", conta já mais divertida.
Tento relativizar a coisa, para a sossegar e para me sossegar. Sempre houve assaltos, eu também sofri algumas tentativas ao longo da adolescência e da juventude, faz parte do nosso crescimento. Sempre vivemos em crise... Rimo-nos.
BW

Viver com medo I

Diz o oftalmologista do meu filho, divertido: "A minha filha não me pode ouvir a resmungar com a mãe, diz-nos logo: Ó pai não discuta! Olhe que os pais da minha amiga M. divorciaram-se e ela diz que a mãe é pobre. Eu não quero ser pobre!", o simpático doutor dá uma forte gargalhada para criticar, de seguida, com ar mais sério: "Tinham tirado a miúda do colégio, diziam-lhe que ia para uma escola melhor e não andavam a dizer à criança que são pobres. Parece que gostam de atormentar as crianças, dizer-lhes que o Pai Natal não existe... Deixem-nas sonhar!"

Ouço tudo com um sorriso nos lábios. É um facto, andamos a atormentar as crianças com a história da crise, da inexistência de futuro para nós, da necessidade de sairem daqui para fora.
"A B. diz que daqui a dez anos estamos todas em NY e quando voltarmos somos milionárias", conta a minha filha, entusiasmada com a ideia, para ser interrompida pelo irmão: "A B. é ignorante! Ela não sabe que os EUA também estão em crise?". Ela fica aflita: "Então, para onde é que vamos?!?". "Para a China, é lá que está tudo a acontecer.",responde ele cheio de certezas.
Apetece dizer-lhes: "Não se preocupem, queridos, vai correr tudo bem! O Pai Natal existe!"
B

A minha sala de aula é uma trincheira na Antena 1

Hoje, às 17h20 ou às 21h20 pode ouvir a conversa que Ana Daniela Soares teve comigo sobre A minha sala de aula é uma trincheira, no programa À volta dos Livros, na Antena 1.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Leite com chocolate

Há dias, um comentador dizia que esta crise nos vai ensinar a não cometer excessos, que o chocara ouvir uma criança, na rádio, dizer que deixaria de beber leite com chocolate no café por causa da crise.

Só para chatear o senhor comentador, no sábado, peguei nos miúdos e fomos tomar o pequeno-almoço à pastelaria, bebemos leites com chocolate com fartura e comemos pão com queijo e fiambre, que eles têm gostos simples, mas se quisessem teriam comido brioches, croissants, pastéis de nata ou outros bolos. No final ainda perguntei: não querem mais nada? Vejam lá, mais um leitinho com chocolate? Não, obrigada, que estavam satisfeitos.

Beber leite com chocolate na pastelaria, no meu caso, faz com que mantenhamos o comércio local aberto, dando trabalho a duas funcionárias e à dona do café; à distribuição; à indústria do vidro; à indústria dos lacticínios; aos produtores de leite e até às vacas, que hão-de ser felizes se continuarem a ser ordenhadas. Portanto, o meu consumo faz feliz muita gente, até o nosso Presidente da República que tanto gosta de ver vacas sorridentes (e só estou a falar do leite, não refiro o pão, o fiambre, a manteiga, o queijo, a electricidade para aquecer o leite, a máquina do café onde a senhora aquece o leite, o consumo de água, etc, etc).

Enquanto puder, hei-de de consumir, na esperança de estar a dar uma ajuda ao comércio local e à indústria nacional. Enquanto puder, que não será por muito tempo porque o senhor primeiro-ministro não tem a mesma noção de Economia que eu, que sou uma consumista, e para me ensinar a não dar leite com chocolate aos meus filhos, vai levar a que os meus direitos laborais me sejam cortados. Tudo para que eduque melhor as crianças, mal habituadas.
BW

domingo, 16 de outubro de 2011

Rankings vistos por quem os estuda

No livro Good Education in an Age of Measurement, o holandês Gert Biesta escreve sobre os rankings e defende que estes têm forçado à valorização daquilo que é mensurável na educação, quando “a primeira pergunta que se deve fazer é: se é possível medir ou avaliar o que é realmente importante?” Professor na Universidade de Stirling, no Reino Unido, onde co-dirige o Laboratório de Teoria Educacional, Biesta vai colaborar com o programa de doutoramento em Ciências da Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologias, da Universidade Nova de Lisboa e vai estar no campus do Monte da Caparica, no próximo dia 26, às 17h, numa conferência aberta ao público.

Na entrevista que saiu no suplemento dos rankings do PÚBLICO, ficaram duas perguntas de fora por falta de espaço e porque se desviavam ligeiramente do tema. Aqui ficam porque são interessantes.

O que é uma “boa educação”?
Essa é uma das perguntas mais difíceis de responder! No meu livro digo que não posso dar uma resposta, mas posso sugerir uma maneira de olhar para essa questão. A melhor maneira é ver a educação como um processo multidimensional, que não se concentra apenas no resultado, mas deve estar preocupada com uma série de resultados. Defendo que há três áreas: o domínio de conhecimentos e competências, que é a maneira pela qual a educação nos qualifica para o trabalho ou para a vida; o domínio da cultura e tradição; e o domínio que tem a ver com a formação da pessoa, aquele em que fazemos perguntas sobre o que significa ser um bom ser humano. Muita da discussão sobre educação parece concentrar-se só no primeiro domínio, e gostaria de, pelo menos, sugerir que ampliassemos a discussão para incluir os outros domínios — que são menos fáceis de medir, mas são pelo menos tão importante quanto o primeiro. Na minha opinião, a boa educação é o encontro de um equilíbrio entre estes três domínios, e isso não é algo que possa acontecer apenas ao nível dos conceitos de política ou de escola, mas está no coração do trabalho diário dos professores. É por isso que é tão importante a boa formação de docentes para o desenvolvimento da boa educação.

Quais são os principais desafios da educação num mundo em crise?
A resposta mais “nervosa” é dizer que precisamos de melhorar os sistemas educativos e centrá-los ainda mais no conhecimento, competências e qualificações, para que possamos competir melhor na economia global. Mas isso é uma visão muito limitada e de curto prazo e levará a uma maneira de pensar a educação que, em breve, será insustentável. Talvez nos próximos anos, por mais uma década, possamos investir pesadamente no aumento da concorrência, na tentativa de ganhar o primeiro lugar na economia global. Mas uma visão tão competitiva, cria mais desigualdade e, no final, levará tanto a desastres sociais como ambientais — e já há várias evidências nesse sentido. Penso que é preciso dar um passo atrás e levantar questões fundamentais sobre o que deve ser uma economia — financeira, ecológica, social e humanamente sustentável —, e como viver juntos e em harmonia. Espero que exista um número suficiente de pessoas que sinta que a educação pode, realmente, desempenhar um papel fundamental no encontro de alternativas reais. Este é o grande desafio, se quisermos encontrar uma saída para a situação em que nos encontramos.

BW
PS: Em Janeiro, entrevistei a professora Cláudia Sarrico, com quem o Expresso falou agora para o seu suplemento dos rankings.

sábado, 15 de outubro de 2011

Rankings II - Depois de olhar para os resultados

Depois de olhar para os resultados, retomo "velhas" questões. O que revelam os rankings das escolas, do esforço e trabalho que fazem (ou não) por melhorar os resultados?
Que consequências têm nas práticas dos professores?

Este ano, as novas questões que me surgem são as seguintes:
O que está a acontecer ao ensino do Português?
O que explica os resultados paupérrimos, abaixo até da Matemática, habitualmente considerada a disciplina "papão" em exame?

No Público gostei particularmente de ler a entrevista a Gert Biesta, professor no Reino Unido e autor do livro Good Education in an Age of Measurement, e a sua "leitura" dos efeitos dos rankings.
Do referido texto destaco o seguinte excerto:
"(..) o mais grave nos rankings é que são uma simplifcação do que é uma boa escola ou do que é a educação"
"Em vez de simplificar o conceito de uma boa escola, através dos rankings, os jornais deviam ajudar os pais e o público em geral a compreender que uma boa educação é uma questão demasiado complexa - são os exames, as questões de cidadania, os valores morais, a formação da pessoa, tudo isto deve ser tomado em conta."

No Expresso, gostei de ler uma outra entrevista, esta Cláudia Sarrico, avaliadora externa da IGE.
A este propósito, pode ler-se o seguinte no semanário, antecipando o que será a avaliação externa a partir deste ano letivo:
"Até agora, o contexto socioeconómico de cada escola não era tido como fator de ponderação na avaliação externa levada a cabo pela IGE. Mas isso vai mudar. «A IGE vai começar um novo ciclo de avaliação este ano letivo, com uma novidade: o cálculo dos resultados esperados para cada escola e para cada ano em que há provas nacionais (4º, 6º, 9º 11º e 12º) face a variáveis que a escola não controla», como a habilitação dos pais ou a percentagem de alunos apoiados com Ação Social. O que quer dizer que, quanto às notas, as escolas não serão avaliadas apenas com base nos resultados que os alunos tiveram nos exames, mas tendo em consideração o que seria expectável terem tido."

Ana Soares

Rankings 2011

Este é o 11º ano em que são feitos os rankings.
Hoje, com o jornal Público, mais um excelente caderno não apenas com os rankings, mas também com alguns textos que nos permitem refletir sobre os mesmos.
Também no semanário Expresso temos um pequeno caderno sobre o mesmo tema.
Como os critérios para a ordenação das escolas são diferentes entre os dois jornais, vale a pena espreitar os dois.

Espreite aqui para consultar os resultados do básico:
Público
Expresso
e aqui para consultar os resultados do secundário:
Público
Expresso

Espreite o retrato do país na Infografia do Público.

Por último, pode consultar os resultados da disciplina de:
Língua Portuguesa  - 9º ano no Expresso
Português - 12º ano também no Expresso

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

valter hugo mãe comove o Brasil

 "Não sei se é a arte que nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida"
                                                                                                          valter hugo mãe

Já me tinham falado deste episódio. Mas tinha-me esquecido de o procurar. Lembrei-me dele ao pesquisar sobre o novo livro de valter hugo mãe, o filho de mil homens, que irei, certamente, ler.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Uma Viagem à Índia e Os Lusíadas

Sobre a inspiração necessária para cantar feitos que se perpetuem nas palavras...


... diz Gonçalo M. Tavares:

"Empurrado por certas deusas da inspiração,
tal como é empurrada a velha camioneta que avariou,
o escritor de motor arcaico, primitivo,
quer afinal apenas que as frases sejam feitas de uma substância
que não evapore lentamente de dia para dia;
deseja frases robustas, que pelos séculos
avancem. Frases que atiradas ao mar: nadem,
e atiradas ao ar, voem."


... diz Camões, na Invocação, canto I:

4

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipoerene.

5

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs

Steve Jobs por Steve Jobs

A importância da literatura infantil

Dora Batalim coordena com José Alfaro uma pós-graduação em Livro Infantil na Católica de Lisboa. Diz a professora à Pública do passado domingo:
"(...) muitos professores não gostam de ler. Mas estão sempre a tempo de começar.(...) Felizmente conheço muito bons professores, daqueles que lêem à frente dos alunos no intervalo. Muitas vezes bastava o exemplo. 'Se tu que és meu professor ou meu pai não lês, eu não leio.'
(...)Há professores que me dizem que não têm tempo para ler porque têm o programa... O programa é isso mesmo, ler. Os livros e os textos falam de tudo o que há no mundo. Estamos num tempo com muito poucas narrativas. Creio que é isto que faz falta às gerações mais novas. É muito angustiante ter uma sala com 45 alunos [na Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich] e perguntar:'Quem é que não tinha pais ou avós que lhe contassem histórias?' quase metade da turma, pessoas de 20 e tal anos, não ouviu hustórias de maneira regular quando eram criança. Muitos dizem-me que não gostam de ler. E vão ensinar crianças. (...)"
BW

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Liberdade de escolha

A liberdade de escolha que mete tanto medo a determinadas facções da nossa sociedade, ciosas de coisas que não existem na cabeça dos pais! Os pais não querem saber dos ensinamentos da República, da escola laica, igual para todos! Estou a exagerar... claro que querem, mas o que preocupa mais os pais é a possibilidade de terem o direito a escolher uma escola segura, com um corpo docente estável, que acompanhe bem os miúdos. Quem é que não quer o melhor para os seus filhos?
Em vez de mentirem e darem a morada de uma loja ou de um restaurante só para ter direito a que os filhos entrem em determinada escola, os pais querem poder dizer a verdade: eu moro ao lado de uma escola péssima e por isso quero que os meus filhos vão para uma escola boa.
E se assim for, pode ser que as leis do mercado se apliquem, que as menos boas consigam dar o salto! Talvez a educação, no seu todo, melhore, com a ressalva que essas escolas mais fracas possam ser bem acompanhadas pelo Ministério da Educação, porque essas precisam de um apoio que as outras, as boas, não necessitam.
BW

Tão de acordo!

Lição magistral