sábado, 14 de julho de 2012

Professores despedidos ou dispensados?

Ontem, um professor escrevia no Facebook que uma escola estava a dispensar colegas por SMS. Portanto, um director a enviar SMS aos seus colegas a dizer-lhes que para o ano não havia horários para eles. Um homem corajoso que pega os touros pelos cornos!
Esta manhã, um professor conversava comigo e apelava para o PÚBLICO escrever sobre o tema. Tanto destaque que demos à greve dos médicos ou à greve dos pilotos e os professores a serem dispensados e ninguém escreve sobre o assunto, queixa-se. Mas o PÚBLICO tem escrito sobre o tema! O que fazemos quando escrevemos sobre mega-agrupamentos e ouvimos directores e sindicatos a dizer que vêm aí despedimentos em massa? O que fazemos quando escrevemos sobre as turmas de 30 alunos e as mudanças de horário e ouvimos quem está no terreno a dizer que milhares de professores serão dispensados?
Agora, à tarde, uma professora envia-me um email a dizer que na sua escola foram 35 professores, a maioria dos quadros. Porque não escrevemos?
E eu pergunto: Onde estavam todos no dia da manifestação? O professor do Facebook estava lá e os outros? Onde estavam os professores contratados que para o ano não terão sequer um contratozinho de dois meses? Onde estavam os professores dos quadros?
Há muito que os professores perderam a guerra, deixaram vencer-se, estão desunidos. As federações e sindicatos que se juntaram contra Maria de Lurdes Rodrigues, onde estão?
BW

Bom fim-de-semana!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Nova época de exames!

Começou hoje, com o exame nacional de Português de 12º ano, a segunda fase dos exames nacionais do ensino secundário.
Depois de Camões na primeira fase, Saramago foi agora a escolha para o grupo I deste novo exame. Os alunos consideraram a prova, no que diz respeito ao grupo A, mais acessível do que a anterior. Por outro lado, sentiram que o grupo B, sobre as tendências da Vanguarda europeia representadas na poesia de Álvaro de Campos, lhes trouxe mais dificuldades. Os critérios de classificação já estão disponíveis aqui.

Olimpvs.net - O lançamento é já na segunda-feira!

A experiência de partilhar um blogue tem sido fantástica. Estes 3 anos de vida do Educar em Português, associados à amizade de 20, aguçados pela vontade de desenvolver novos projetos deram origem à nossa mais recente aventura: a coleção Olimpvs.net
Para alguns, uma loucura (o que é isso de se porem a escrever sem terem a certeza de ter um editor e ainda por cima em tempo de crise!). Mas, para nós, foi uma certeza. A ideia base era tão boa, a vontade de trabalharmos (ainda mais) em equipa era tanta que, claro, tivemos de avançar!
E, agora, até custa a acreditar que já temos dois volumes prontos! Vimo-los esta semana pela primeira vez em papel. (E parece que amanhã já devem começar a chegar às livrarias.) E estão tão bonitos!
Estamos muito entusiasmadas e satisfeitas com o produto final. Livros apelativos, com um formato e peso adequados para os mais jovens.
Quanto ao conteúdo, sabemos que o mesmo é diferenciado do que existe no mercado (ora, não queríamos repetir fórmulas!). Desengane-se, portanto, quem pense que vai encontrar "simples" aventuras de um grupo de miúdos!

Não querendo desvendar o mistério por completo, cada história apresenta sempre de forma  explícita  uma figura da mitologia ou um mito  e, por outro lado, de forma implícita, um tema da atualidade.
Volume a volume, acreditamos que, acompanhando os nossos cinco heróis, os jovens leitores vão conhecer mais da cultura clássica e, sobretudo, vão adorar conhecê-la!


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Meio milhão de visitantes!

Estamos de Parabéns! Nós e o Educar em Português.
Atingimos hoje o meio milhão de visualizações de páginas. Estas, habitualmente, têm sugestões de leitura, desabafos de mãe ou professora, análises críticas do que se vai passando no nosso país, sugestões de espetáculos ou atividades. Um pouco de tudo isto tem alimentado este projeto que eu e a Bárbara partilhamos. E, como os 2722 comentários atestam, os nossos leitores têm gostado!

Lançamento do Olimpvs.net

É já na segunda-feira, dia 16 de Julho, às 18h30, na livraria do El Corte Inglés, em Lisboa!
Estão todos convidados.

Também estou a ensinar quando luto!

Nos últimos dias tenho insistido em perguntar: porque vieram 120 mil para a rua por causa da sua avaliação do desempenho e não vêm quando têm o emprego em risco, quando podem passar a horários-zero, quando vão ter 30 alunos por turma?
Estão desanimados, angustiados, esmagados, respondem Mário Nogueira e o responsável da Associação de Dirigentes Escolares.
Sentiam-se mais acossados por Maria de Lurdes Rodrigues do que por Nuno Crato, o ministro professor, como pode ler aqui.
Nestes dias em que achamos tudo normal – o ministro da exigência, do rigor, da avaliação conviver jovialmente com o ministro a quem saiu uma licenciatura na caixa da farinha Lusófona e que não lança uma inspecção àquela universidade; termos uma taxa de desemprego com dois digitos; termos pessoas a quem o trabalho não resgata da pobreza – os professores parecem apáticos e desconheço se esta tarde estarão mobilizados para se manifestarem.
A concentração promovida pela Fenprof já serviu para uma coisa, para ler a frase do cartaz "Também estou a ensinar quando luto!". Precisamos de ensinar isso às novas gerações para que não anseiem serem Relvas. 
BW

terça-feira, 10 de julho de 2012

Olimpvs.net

Este é um segredo que estamos a revelar!

Depois da amizade; da parceria no blogue Educaremportugues; de carreiras paralelas, a Ana como professora, eu como jornalista ligada à Educação; de termos a experiência de publicarmos livros, a Ana os manuais e livros de apoio, eu os livros para pais e professores; decidimos abraçar um projecto diferente – os livros para crianças e adolescentes!
O Olimpvs.net é um projecto que nos dá muito gozo, que nos diverte – que ninguém duvide que dá trabalho, muito trabalho – mas que nos faz mais felizes por podermos partilhar a alegria do Pedro, a sensualidade da Mel, a inteligência da Alice, a sensibilidade do António e a liderança do Zé. Eles são os nossos heróis e, esperamos, que sejam os heróis dos nossos leitores. Rapazes e raparigas de hoje, com os seus gadjets e forma de viver acelerada, que vão aprender um pouco mais sobre os mitos e os heróis da Grécia Antiga, mas não só, sobre os principais problemas que o mundo atravessa.
Mas este é também um projecto que as escolas podem abraçar, porque foi pensado para os professores. E até para os pais que quiserem envolver-se na leitura dos filhos.
Tudo isto é possível porque somos amigas, mães e profissionais ligadas à Educação!
No início da próxima semana estaremos a lançar os dois primeiros volumes do Olimpvs.net , em Lisboa.
BW

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A atroz iliteracia...

... que até dói! Espantam-me os alunos que aqui vêm à procura dos seus próprios resultados! Que têm outros leitores atentos a explicar-lhes que os resultados se vêem na escola e eles insistem em perguntar onde estão. OS RESULTADOS ESTÃO NA ESCOLA!
Repito: Alunos que fizeram exames nacionais, os vossos resultados estão na escola onde realizaram as provas que será, na maioria dos casos, aquela onde andaram o ano todo!
E quando chegarem à escola, antes de começarem a olhar para as pautas a exclamar "O quê? Não percebo nada disto, afinal tive 3 ou 4?!" eu explico algumas coisas que precisam de saber:
CI - quer dizer Classificação Interna que foi a nota que os vossos professores vos deram no final do periodo;
CE é a Classificação do Exame (aquela que vocês tão afanosamente andam aqui à procura);
e CF é a Classificação Final (aquela que é a média da CI e da CE, tendo em conta que o exame vale 30%, excepto para os estudantes do 6.º ano para quem vale 25%, excepcionalmente este ano).

Depois, quando olharem para a outra pauta onde as notas dos exames estão desdobradas não voltem às exclamações do "ai, que eu não estou a perceber nada..." A nota global do exame está a bold, depois leiam no topo da página as várias áreas que foram avaliadas e percebam que nota tiveram em cada uma das partes do exame. Por exemplo, podem compreender que são melhores na "escrita" do que no "funcionamento da língua", no caso de Língua Portuguesa; ou na "geometria" do que na "álgebra". Esta é uma informação útil para, por exemplo, durante as férias trabalharem o "funcionamento da língua" que, em breve se voltará a chamar "gramática".
Vá, agora vão lá à escola e se tiverem alguma dúvida, não hesitem em perguntar a alguém! Mas não façam exclamações palermas! Sejam discretos!
BW
PS: Podem ainda ir à página do Gave e ler as instruções!

Resultados dos exames nacionais básico e secundário 2012

Na primeira chamada dos exames nacionais de 2012, os alunos do 6.º ano tiveram, de média nacional a Língua Portuguesa (LP) 59% e a Matemática 54%. Contudo, a percentagem de alunos com nível 1 e 2 ( numa escala de 1 a 5) foi de 24% a LP, praticamente um quinto; de 44% a Matemática. No final do ano reprovaram 10% dos alunos a LP e 23% a Matemática.

Quanto aos alunos internos do 9.º ano, os resultados dos exames nacionais foram os seguintes: 54% a ambas as disciplinas. Surpreendentemente, a Matemática, depois de um teste intermédio tenebroso, com uma média nacional na casa dos 30%, os alunos conseguiram uma média dez pontos percentuais acima do resultado do ano anterior (44% em 2011). Ainda assim, 45% dos estudantes tiveram resultados de nível 1 e 2 e 27% reprovaram. Quanto a LP, 36% tiveram testes corrigidos com nível 1 e 2 e reprovaram 11% dos estudantes.

No que diz respeito ao secundário houve ligeiras subidas à maioria das disciplinas, excepto a Biologia e Geologia A (media de 9,8 - numa escala de 0 a 20 -, menos 1,2 valores do que o ano passado) e a Física e Química A, com média de 8,1, uma descida de 2,4 valores relativamente a 2011.
A maior subida verificou-se a História A com 11,8 (mais 1,3 valores do que no exame anterior).
Nas restantes cadeiras observaram-se ligeiras subidas entre os 0,1 e os 0,7 valores: a Português A a média foi de 10,4; a Matemática A 10,5; Geografia A teve 10,6; Matemática Aplicada às Ciências Sociais conquistou os 10,6; a Geometria Descritiva A teve 10,7 e a Economia A a média foi de 11,7 valores. O exame de Filosofia não era realizado desde 2007 e a média foi de 8,9 valores.
BW

Resultados dos exames nacionais 2012

As novidades estão aqui e aqui.

Mensagem actualizada às 16h50 quando foi introduzido o link para o Gave

sábado, 7 de julho de 2012

Estatuto do Aluno aprovado

Estou já a fazer um mealheiro para as coimas que possa vir a pagar pelo comportamento dos meus filhos em sala de aula, pelas possíveis faltas de material ou mesmo pelas faltas presenciais. Com a necessidade que o país tem de pagar as dívidas deixadas pelos anteriores governos, os professores poderão vir a ser incentivados, tal como as forças de segurança pública, a passarem umas multas para encher os cofres do Estado. Sugiro ao ministro das Finanças que aconselhe o colega da Educação a considerar inserir como um dos items do modelo de avaliação a quantidade de multas passadas, quantas mais, mais alta a nota!
Imagino já a minha filha a assoar-se com mais força e a apanhar uma multa; o meu filho a levantar o braço e a levar uma multa. E se ela se vai calar, ele vai contestar e dizer: "Ó professora, isso não é justo!" e mais uma multa!
Portanto, ontem, depois de aprovado o novo estatuto do aluno, comprei um porquinho, mas daqueles que se abrem por baixo porque, a partir de Setembro, vou precisar dele com periodicidade, imagino. Os valores das coimas são calculados em função do ano de escolaridade e podem ir dos 13 aos 79 euros.

BW
PS: Há uma semana que diariamente, junto ao complexo desportivo que o meu filho frequenta há assaltos, feitos pelos mesmos miúdos, de bicicleta. Ontem, a PSP estava lá. A fazer o quê? A multar os carros mal estacionados, no lado da frente do complexo, enquanto na parte detrás, os miúdos continuavam a fazer os seus assaltos, calmamente. Apanhar ladrões fica mais caro ao sistema do que passar multas, é um facto.

As polémicas entre as metas e os programas

Os programas existem, foram aprovados, foram feitos manuais escolares com base nesses mesmos programas, foi feita/dada formação aos professores sobre os novos programas, o ministro Nuno Crato disse que não ia mexer nos programas mas que ía apresentar novas metas e elas aí estão.
E os autores dos programas dizem que as metas nada têm que ver com os programas que fizeram; e os autores das metas dizem que estas especificam melhor o que os programas dizem. Os autores dos programas dizem que as metas são um outro programa.
Nas guerras entre autores, temos um ministro calado, os professores calados (não lhes vá acontecer como àquela directora que foi afastada porque falou demais...), as editoras caladas (à espera de perceber se vão fazer outros manuais ou se mantêm os mesmos), os pais calados, os sindicatos calados.
Quem é que defende os alunos? E quem defende os próprios professores? Ou estes já estão por tudo? "Venham as metas que me descansam a beleza. Querem que eu ensine a contar até 100 e a ler 55 palavras num minuto? 'Bora! Eu consigo, vou comprar um cronómetro! E se não conseguir tenho a certeza que o problema é do aluno e não meu."
Quem defende a Educação das guerras entre o eduquês e o rigor/exigência?
BW

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Resultados dos exames nacionais

A preparar a chegada dos resultados dos exames nacionais na próxima segunda-feira, aqui fica este artigo que recupera as médias do ano anterior e assinala as áreas de maior dificuldade para os nossos alunos: a leitura e a escrita.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

As novas metas II

Ainda a propósito deste tema, cito o blogue "Atenta Inquietude" e convido-vos a passar por .

"A tentação de estabelecer metas curriculares por ano de escolaridade, correndo o risco de uma leitura fechada, relembro que serão obrigatórias a partir de 2013/2014, pode levar a que o ensino se transforme na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem o que culminará, antecipa-se, com a realização de exames todos os anos. "


sábado, 30 de junho de 2012

As novas metas

Já são públicas as propostas de Metas Curriculares do Ensino Básico para as diferentes disciplinas. Estão todas disponíveis aqui, na página do Governo de Portugal. Pode consultar o documento referente à disciplina de Português neste link.

Pode ler-se na página do Ministério da Educação que "as metas que agora se apresentam serão uma referência da aprendizagem essencial a realizar pelos alunos em cada disciplina, por ano de escolaridade, sendo um documento normativo de utilização obrigatória a partir do ano letivo 2013/2014. As metas terão no próximo ano letivo carácter indicativo, mas são fortemente recomendadas." (sublinhados nossos).

Até dia 23, os contributos podem ser enviados para metas.curriculares@mec.gov.pt

Tenho de fazer uma leitura mais cuidadosa do documento e, sobretudo, uma leitura menos a quente, pois, numa primeira abordagem, são já vários os motivos para ter começado o fim de semana francamente irritada:
- ao contrário do que sucede nos programas, as novas metas são definidas por anos;
- ao contrário dos programas, fala-se, neste novo documento, em domínios e não em competências;
- ao contrário do preconizado pelo programa, a designação que substitui o "Funcionamento da Língua" é "Gramática" e não o "Conhecimento Explícito da Língua".

Não digo que estas propostas não seja adequadas ou interessantes. Até acho curioso assumir-se que deve haver uma área designada por "educação literária" ou que a expressão oral e compreensão do oral podem estar (novamente) reunidas na "Oralidade".
Digo sim, que não faz sentido termos um novo programa que só este ano entra em vigor em setembro no 6º e 8º anos (e só no próximo ano entra em vigor para o 9º!) e estar já com a sensação que o mesmo está caduco.
Morto antes de nascer por completo! (Se calhar estou a exagerar e está só moribundo. Vá lá, desculpem a minha irritação)

Imagino as mães e pais que querem acompanhar os seus filhos a navegar perdidos entre livros, manuais, gramáticas que não são coerentes.

Como cidadã, irrita-me profundamente perceber que os meus impostos têm servido para financiar estas experiências que não chegam a ser implementadas por completo, nem avaliadas, para dar lugar a novas equipas e projetos.

Como professora, então, nem imaginam!!!!

Como é possível que me tenham pedido para assumir que os programas iam passar a ser de ciclo para, agora, voltarmos a ter objetivos anuais? 
Passei a acreditar que, atendendo à diversidade da realidade das escolas, a proposta de ciclo serviria melhor os alunos.
Convenci outros disso.
E agora, as metas vêm destruir o trabalho de anualização que foi pedido às escolas e departamentos de Língua Portuguesa.
Vêm ainda tornar caducos e desatualizados os manuais (em vigor por 6 anos) que as famílias adquiriram o ano passado e os que vão comprar em setembro próximo, pois estes, sendo fiéis aos programas, falam em competências; conhecimento explícito da língua; atendendo à gestão intraciclo que foi permitida, podem não integrar determinado conteúdo no ano previsto e, além disso,  não apresentam todos os textos das listagens anexas ao documento das metas.

Não acredito ainda que os professores se  tenham de ter adaptado à Tlebs, Tlebs revista, Dicionário Terminológico. Deixaram, entretanto de poder falar em Funcionamento da Língua. Passaram a assumir que a designação "Conhecimento Explícito da Língua" servia melhor o propósito de reforçar a natureza desta área do saber linguístico.
E agora, esqueçam lá isso!!!
Afinal, "Gramática", como os nossos pais ou avós diziam, é que está bem!

Até pode estar, mas, por favor, quando vai ser dada às escolas e ensino da nossa língua estabilidade???
As escolas estão cansadas de tanta mudança, de tantos materiais divergentes na linguagem, dos alunos navegarem perdidos por gramáticas e manuais discordantes.
Choca ainda que as divergências nasçam nos próprios documentos normativos, emanados do ME: os programas e as metas.


Teolinda Gersão a propósito da Língua Portuguesa - II

A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. 

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática). "

Teolinda Gersão, junho, 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Teolinda Gersão a propósito da Língua Portuguesa

Um texto muito divertido da escritora Teolinda Gersão, publicado pelo Público no dia 18 de Junho

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.

Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

11-06-2012
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? 

Educação Física no secundário

Para ver