
A resposta simples é: porque nós deixamos! Porque achamos graça a tudo o que fazem, porque nos sentimos perdidos quando eles ficam furiosos e nos perguntamos
o que é que fizemos mal? Porque temos medo de perder o amor deles.
Dizia-me uma educadora de infância: "Os pais fazem figuras incríveis. São inseguros e revelam as suas inseguranças à frente dos miúdos. Fazem-lhes todas as vontades com medo de os contrariar e os miúdos são uns tiranos!"
Estremeci. Dentro da minha mala tinha um exemplar do
Porque é que os nossos filhos se tornam tiranos?, do alemão Michael Winterhoff, da editora Lua de Papel. O pedopsiquiatra escreveu este pequeno livro em 2008, e vem na linha do
Pequeno Ditador do Urra, da Esfera dos Livros ou o
Educar os Filhos de Naouri... e de outros psicólogos, pediatras e afins que descobriram agora que andámos a fazer tudo mal desde o Maio de 1968! É muita geração estragada! São muitos milhares de tiranetes que andaram a ser (mal)criados!
Winterhoff cita uma mãe que tem um filho com problemas (défice de atenção e problemas de comportamento) na escola, esta atribui as culpas aos professores e à escola que não se adaptou ao filho. O especialista cita uma professora que diz que a segunda-feira é o pior dia da semana, os alunos vêm de um fim-de-semana sentados à frente da televisão, a deitarem-se tarde, a fazerem tudo o que querem e quando chegam à sala de aula estão completamente avariados (isto é uma interpretação minha, completamente livre, a professora não diz avariados, nem desaustinados, diz "inaptos").
Winterhoff recorda que, nos últimos anos, falar em dar uma palmada já não é tão mal visto como antigamente e sublinha um aspecto muito importante: o educar para viver em sociedade.
Mas a culpa não é só dos pais que educam para a individualidade, diz o alemão. A culpa é do modo como as creches, jardins de infância e escolas de 1.º ciclo estão estruturadas. Também estas olham para as crianças como seres que devem desenvolver a sua imaginação, o seu ser individual, em vez de lhes mostrar "o caminho rumo a uma existência integrada na sociedade".
E nada de "crianças ao poder", Winterhoff ridiculariza os parlamentos das crianças e coisas semelhantes onde se dá um destaque que considera desnecessário porque lhes falta maturidade psiquíca. No final do livro diz: "Tem de se pôr fim ao forçado papel de pequenos adultos, que com grande naturalidade colocamos ao nosso lado em pé de igualdade em todos os planos da vida."
Em suma: Winterhoff identifica o problema - hoje muitos deles são pequenos tiranos, ditadorzinhos; os pais andam completamente baralhados e olham para os miúdos como pequenos deuses, apoiam-se neles e eles são demasiado pequenos para todos os papéis que lhes são exigidos -, e aponta uma solução: conhecer a maturidade psiquica da criança e tratar as crianças como crianças e não como pequenos adultos.
Enfim, Winterhoff é alemão e a maioria dos alemães não consegue ver as gradações de cinzento que há entre o preto e o branco, é gente demasiado prática. Sim, é verdade, vivemos em sociedade e devemos encaminhar a educação dos nossos filhos para que se integrem na grande roda, mas estes devem continuar a ser seres únicos e irrepetíveis, imaginativos, criativos, inteligentes e, acima de tudo, amados.
BW