segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Intimidade
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
domingo, 9 de janeiro de 2011
Carlos Castro, Renato Seabra e Odília Pereirinha
Tenho pena, muita pena, daquela mãe que tem a certeza que tem um filho de ouro, que jamais seria capaz de fazer mal a quem quer que fosse. "Não acredito. Não acredito. O meu filho, sendo um filho de ouro, um filho que é muito bom, não fazia isso", disse Odília Pereirinha no aeroporto, antes de embarcar numa viagem que não se deseja a ninguém.
Carlos Castro morreu em Nova Iorque, não da maneira que desejava, mas na cidade que adorava e onde queria que as suas cinzas fossem espalhadas - precisamente em Times Square, onde fica situado o hotel -. Mas não se imagina uma figura como a deste cronista a morrer de velhice num lar de idosos, pois não?
Renato Seabra, o alegado autor do crime, o aspirante a modelo foi ingénuo? Ambicioso? Ganancioso? Crédulo? A confirmar-se que é o autor do crime, praticou-o no pior sítio do mundo, onde a justiça é rápida e pesada, para já não falar das prisões.
Odília Pereirinha é mãe. E não há nada a dizer.
BW
Mais um estudo, este a dizer que...
É um estudo feito com apenas 24 famílias, no Vale do Ave.
BW
A educação e o abono de família
O DN fez as contas e conclui que há famílias que até agora estavam no 2.º escalão do abono social passam para o 3.º e vão suportar despesas em educação que não tinham até agora. A acrescentar aos cortes no abono de família, há ainda o apoio social escolar que passou a estar indexado aos escalões do abono. Portanto, uma desgraça nunca vem só.
A educação devia mesmo ser gratuita, sobretudo para quem tem menos.
BW
PS: Vale a pena acompanhar o trabalho que o DN começou a publicar na sexta-feira sobre a Despesa do Estado e a má gestão da coisa pública que pesa no bolso dos contribuintes, nós.
Bom domingo!
Glee regressa para a sua segunda temporada!
BW
sábado, 8 de janeiro de 2011
O ipad não pode, nunca, substituir o jornal
Apesar de ambas, eu e a Bárbara, preferirmos o Ipad ao Magalhães, o primeiro não pode, nunca, substituir o jornal! Veja o vídeo e saiba porquê.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
"Os professores no lugar onde têm de estar"
É o título do editorial do PÚBLICO de hoje que reflecte sobre um estudo - que é notícia nas páginas do PÚBLICO - que conclui que factores como a literacia dos pais ou a idade dos alunos contam para o sucesso dos estudantes mas pouco! O que conta de facto é a escola e são os professores!Uma casinha de chocolate para montar e... comer!
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Novidades do dia:
2 - Governo elimina disciplina de Área de Projecto no 12º ano
3 - Formação Cívica para o 10º ano
A notícia é do Público e surpreende, pois todos esperávamos notícias do básico e, afinal, temos em primeiro lugar as mudanças do secundário oficializadas.
3 - Naturalmente que, em teoria, concordo com a Formação Cívica. No entanto, tenho dúvidas sobre os moldes em que a mesma vai ser operacionalizada. A ver vamos.
Ana Soares
Não é por nada, mas eu preferia...
BW
O poder dos pais
Uma amiga mudou um dos filhos do colégio para a escola pública e está satisfeitissima. Dizia-me que no colégio falava, falava, o director dava-lhe razão mas encolhia os ombros e a desculpa era sempre a mesma: "O professor é efectivo..."; era difícil mobilizar os pais, mais preocupados com instalações e custo do colégio do que com o que se passava na sala de aula.Agora, na escola pública, a minha amiga é o terror dos "maus" professores. A minha amiga telefona aos outros pais, reúne com eles, junta-os e, à conta destes pais, já três professores foram "remodelados". Em contrapartida, estes pais juntam-se para angariar dinheiro para a escola, para as visitas de estudo ou viagens dos miúdos com mais necessidade, para as actividades que a escola quer fazer como as feiras e exposições. A directora sabe que pode contar com eles e a minha amiga está mesmo, mesmo feliz. "No colégio não era nada assim, bendita escola pública!"
Conta-me uma investigadora que não tem dúvidas que o poder dos pais na escola pública é maior do que na privada, sobretudo nas terras mais pequenas, não em Lisboa ou no Porto, mas no resto do país, onde as direcções das escolas não querem contrariar os pais.
Esta investigadora explica que os pais, ciosos por uma melhor educação, são exigentes porque em cidades de média ou pequena dimensão não há muito por onde escolher. Por vezes, há só aquela escola, por isso, os pais querem que seja a melhor e fazem por isso. Exigem-no.
A minha amiga tem a certeza que tem o filho na melhor escola pública da cidade e já só pensa no fim do ano para mudar o outro filho para aquela escola. "Os pais estão ao lado da directora e ela sabe que pode contar connosco", diz-me. O próximo professor que não cumprir os requisitos que aqueles pais exigem que se cuide!
BW
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Histórias com Chá
Diz um amigo meu que, quando não sabemos o que ler, é sempre seguro pegar num prémio Nobel. Foi assim, e por já ter ouvido uma outra amiga falar deste livro, que cheguei a Yasunari Kawabata, autor japonês, e ao seu livro Mil Grous. Numa edição da D. Quixote, numa tradução que não faço ideia se é fiel ao original, mas cujo resultado final se me afigura como muito agradável, entrei no mundo dos rituais associados ao chá, a minha bebida preferida. Uma pequena narrativa -carregada de relações entre vivos e mortos, pais e filhos, amores e paixões - que sustenta a apresentação da cerimónia do chá. Confesso que houve um aspecto que me incomodou aquando da leitura: os nomes das personagens e dos utensílios do chá, tão diferentes da nossa linguagem, pareciam, a cada vez que surgiam, nas linhas do texto, obrigar-me a pensar a quem ou ao que se referiam, assim perdendo a leitura alguma da naturalidade e fluidez que tanto aprecio quando estou a ler. Todavia, o livro é uma experiência que recomendo. Pelo Nobel (de 1968), pela história, pelo chá.Ana Soares
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
2011 mais caro

Com a reforma congelada e o dinheiro contado, ao meu lado está uma velhinha que prescinde de levar três bolinhas e vai pagar só duas. As bolinhas eram 0,16 euros, são agora 0,18 cada uma e o pão comprido era 0,80 passou para 0,87 euros. Atrás de mim, uma professora do 1.º ciclo indigna-se com o aumento, viu o seu ordenado cortado e o subsídio de alimentação também. Em vez de um pão grande, vai passar a levar carcaças, informa à vendedora. A velhinha concorda, é boa ideia, sim senhora, mas as carcaças não enchem tanto a barriga.
A vendedora mantém-se calada até deixar sair entredentes: "São os preços novos", desculpa-se.
"É a crise", respondemos as três em uníssono, para rirmos, sem acharmos graça nenhuma.
Na rua, o meu filho diz-me: "O IVA aumentou para ver se saímos da crise, não é?". Pois.
Leia mais aqui sobre as medidas que entraram em vigor no início do ano.
BW
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Com as festas...
Os alunos do 3.º ciclo e do secundário não sabem interpretar, nem a Português, nem a Matemática. Não é novo, já todos o sabíamos. É grave e a culpa não é só do Governo, mas das famílias e dos professores.
O que não me parece muito correcto é comparar estes resultados com o PISA. Os TI testam os alunos nas disciplinas, tendo por base os programas das mesmas; os do PISA avaliam os estudantes na literacia da língua, matemática e científica, ou seja, os alunos não respondem a perguntas sobre matéria, como nos primeiros.
Os TI são feitos a meio do ano, para algumas escolas são uma espécie de preparação para os exames nacionais (no caso dos alunos do 8.º ano), por todos os alunos desses anos de escolaridade. O PISA é feito por estudantes de 15 anos, independentemente do ano de escolaridade que frequentam, que são escolhidos aleatoriamente, cerca de 40/escola, em pouco mais de 200 estabelecimentos de ensino.
Só estas duas premissas deveriam servir aos professores e comentadores de serviço para não extrapolarem. Parabéns ao Gave por esta atitude de transparência, ou seja, os testes fazem-se e os seus resultados não só chegam às escolas onde os TI foram feitos, como chegam ao grande público. O relatório está aqui.
BW
Para quem vem aqui através do apelo do senhor César Preto...
O que aqui poderá confirmar é que os jornalistas não são amorfos, pensam e são pessoas. E este é o MEU espaço, onde EU escrevo o que penso sobre a vida, os filhos, a família, a educação, a escola, etc. Outra coisa é o MEU trabalho que está plasmado nas notícias, reportagens e entrevistas que são publicadas no PÚBLICO.
Tudo isto por causa deste texto! Escrevi-o porque sou uma grande defensora do privado, porque estou a fazer publicidade aos colégios, a começar pelo Moderno, acusam alguns dos leitores do PÚBLICO, nomeadamente o senhor César Preto que convida os leitores a vir aqui confirmar a marota que eu sou, que misturo trabalho com convicções pessoais.
Passo a contextualizar os leitores:
1. Eu não escrevi a reportagem do Moderno porque defendo o privado, escrevi-a porque me foi pedida. É que os jornalistas têm editores e directores acima deles e não escrevem só o que querem... Aceitei a ideia (atenção: por vezes, os jornalistas têm liberdade para dizer não, que isto aqui não é uma ditadura!) porque havia um facto de que tinha conhecimento: alguns colégios tinham fila à porta para pré-inscrições. Quando comecei a pesquisar - falei com vários colégios, como se pode ver aqui - percebi já ninguém tinha filas, à excepção do Moderno, embora pouco significativa porque as matrículas podem ser feitas pela Internet, como nos outros.
2. Depois de informar os meus superiores ficou decidido que ainda assim avançaria para a reportagem. O ângulo já não eram as filas, mas os que se recusavam a fazer a matrícula pela Internet. E, para isso, teria de falar com os pais que se juntavam à porta do Moderno. Lá fomos nós, jornalista e repórter fotográfico para a porta do colégio uma noite antes e no dia das inscrições.
3. O que se lê na reportagem não é um elogio ao colégio, mas as motivações e reacções dos pais que se sacrificam a passar uma noite (talvez mais) à porta de uma escola. Aliás, não foi nada fácil fazer um texto quando os pais, os que passaram ali a noite, se fecharam em copas e se recusaram a falar e a ser fotografados porque têm vergonha de estar numa fila, porque sabem que estão a fazer uma coisa que a própria directora lhes pediu para não fazer, porque já faz pouco sentido nos dias que correm. "Ó minha senhora, de mim não leva nada", é paradigmático do sentimento daqueles pais.
4. Nas páginas do jornal, podem ler-se ainda dois textos que são sobre as angústias que os pais passam à frente do computador a fazer a pré-inscrição e os critérios de admissão dos colégios.
CONCLUSÃO:
1. O trabalho, no seu conjunto, tem a função de informar os leitores que: ainda há pais que se sujeitam a passar noites em claro por causa do futuro dos filhos; os colégios continuam a ter procura, a matrícula não se faz presencialmente mas pela Internet; e é a direcção dos colégios que tem a última palavra, não os pais que fazem os sacrifícios e vão viver a angústia de não saber se o filho foi ou não admitido, senão daqui por uns meses.
2. O que não está no texto mas que motiva os comentários mais agrestes é isto: O sacrifício que os pais fazem para NÃO meter os filhos na escola pública e isso é que dói!
3. Mas também sabemos dos enganos que os pais cometem para meter os filhos NAQUELA escola pública e o que esta faz para seleccionar os alunos. Esse trabalho também já foi feito no PÚBLICO.
BW
PS1: Na manhã em que fui para o Moderno, apanhei uma taxista que me descrevia a sua relação com a imprensa: "Vocês [PÚBLICO] é mais política, não é? Eu gosto de ler o Correio da Manhã porque percebo tudo! Eu para ler o Diário de Notícias tenho que ter um dicionário ao lado porque não conheço muitas palavras. Vocês [os jornalistas] esquecem-se que o povo só tem a quarta classe e não aprendemos as palavras todas."
Lembrei-me desta conversa porque quando leio alguns comentários penso que quem leu a notícia, a entrevista ou a reportagem não percebeu porque não compreende, porque não sabe interpretar, porque tem a mania da teoria da conspiração e lê sempre com esses óculos postos.
E de seguida penso, a escola tem TANTO trabalho pela frente! E, logo depois, tremo quando penso que alguns dos comentadores são professores, são aqueles que deviam ensinar as crianças a serem livres e a interpretar...
PS2: Os jornalistas também vão atrás de pistas que os leitores ou outros lhes dão sobre determinados assuntos; também escrevem sobre actualidade; sobre queixas, acusações, etc. Raramente escrevem sobre as coisas de que gostam.
