terça-feira, 31 de agosto de 2010

Apenas dois Emmy para Glee

Glee, a série nomeada para sete categorias dos Emmy Awards, os óscares da televisão, venceu apenas dois prémios: melhor realizador de série de comédia, Ryan Murphy, e melhor actriz secundária em série de comédia, com Jane Lynch a arrecadar o prémio.
Jane Lynch interpreta Sue, uma professora de Educação Física muito peculiar, fria, seca, antipática e, no entanto, muito divertida e até, à sua maneira, uma excelente educadora. Faz bem o contraste com o professor de Espanhol Will Schuester que assume a direcção do coro da escola e que se envolve com os miúdos e os seus problemas.
BW

A arte de morrer longe

Este é o título do último romance de Mário de Carvalho. Como quase sempre, passado em Lisboa, pela Avenida de Roma e Campo Grande, num registo cómico-corrosivo e com o rigor da escrita a que este autor já nos habituou. A história de Bárbara e Arnaldo (do processo de separação dos mesmos e da respectiva tartaruga) surgem nesta "cronovelema" (conforme a capa logo indicia) a par e passo com referências intertextuais várias. De Cesário Verde a Eça de Queirós, muitos são os textos que estão por detrás da superfície deste texto.

Cerca de 100 páginas para ler numa tarde de verão.



Ana Soares

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fernando Pessoa em São Paulo

Leia sobre a exposição dedicada a Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa aqui.

E para quando o "nosso" Museu da Língua Portuguesa?

domingo, 29 de agosto de 2010

Glee: a Fame dos nossos filhos (e a nossa!)



São adolescentes, são os inadapatados, os ex-populares, os que passam pela escola e parece não deixarem marca, mas que estão vivos e têm os sonhos, as ansiedades e os problemas próprios da idade. São os professores, os adultos com os mesmos medos e desejos dos mais novos.
Somos nós quando tinhamos aquela idade, quando viamos a Fame e sonhávamos a escola cheia de ritmo e de música.

Na verdade, Glee é muito parecido com Fame, tem os rapazes e raparigas de todas as cores, feitios e orientações sexuais mas muito mais cientes e conscientes das suas diferenças do que os personagens mais inocentes da década de 1980 (ou seríamos nós que não atingíamos tudo?)!
Hoje é noite de Emmies
BW

sábado, 28 de agosto de 2010

a máquina de fazer espanhóis

O ano passado o meu compadre deu-me a ler o apocalipse dos trabalhadores. Original, tanto no tema como na escrita. Li o livro emprestado. Este verão, foi ele que me pôs nas mãos a máquina de fazer espanhóis. Ao fim das primeiras vinte páginas disse: vou comprar um para mim. Gosto de mexer, sublinhar, dobrar cantos às páginas dos livros que amo. E este foi um desses casos. Numa escrita que, para quem gosta de Saramago, flui naturalmente, valter hugo mãe fala-nos da vida. Neste caso, da velhice, como noutro post antecipei. Fala-nos da mesma num registo que mistura o verosímil, o sarcasmo e ironia com o texto intimista. Sem maiúsculas, ao jeito saramaguiano, mas com maior cadência, e em frases mais curtas. Acrescenta ainda, no caso deste livro em particular, referências intertextuais deliciosas. Uma das personagens secundárias da obra é, pretensamente, personagem do poema "Tabacaria" do Álvaro de Campos. E assim se vai comentando a metafísica das coisas à medida que vemos o velhinho de 84 anos aproximar-se, com a lucidez e calma possíveis, da morte.
Ana Soares

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Casos de leitura

"Não há maneira de ele acertar quando é que se usam dois rr!!!"

"Os sons do X fazem-lhe muita confusão. Não há maneira de os entender."

Se os casos particulares da escrita e leitura são, às vezes, um problema para os graúdos, quanto mais para os mais pequenos que se iniciam na escrita. É a pensar nesses casos que recomendo a colecção Júnior - Contos de Apoio à Leitura e à Escrita da Texto. É a partir de um pequeno conto infantil que se propõem exercícios específicos a cada caso particular da nossa língua. Do duplo r, aos uso do m / n; dos dígrafos ou ditongos, são 28 títulos que podem ser úteis a pais e professores no apoio aos alunos do 1º ciclo.

Ana Soares

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Entrevista a Jorge e Daniel Sampaio

Tem precisamente um mês a entrevista feita por Anabela Mota Ribeiro para a Pública aos dois irmãos Sampaio, o ex-Presidente da República Jorge Sampaio e o professor catedrático da Universidade de Lisboa Daniel Sampaio.
O que podemos aprender com Arnaldo Sampaio e Fernanda Bensaúde Branco de Sampaio, os pais destes dois irmãos?

Jorge Sampaio:

"Os seus pais promoviam a individualidade? Que existissem autonomamente, sem uma ligação umbilical permanente?
Isso sim, no sentido de cada um ser aquilo para que tem vocação. Um por todos e todos por um - não gosto da divisa, mas é significativa, praticamo-la muito. Outra divisa: a necessidade de falar sempre a verdade. Uma vez, sobre um ponto do liceu não disse a verdade sobre a nota que tinha tido. Isso durou meio dia. (...) No caderno estava uma nota pior do que aquela que eu tinha dito. "Isso não se pode fazer" [disse o pai]. Foi à estante e tirou um livro, era a história de um jovem a quem foi feita uma perseguição injustamente e o pai bateu-se por ele até ao fim. (...) "Lê este livro, tens de ser assim para eu ter confiança em ti".
(...)
Quando teve medo de dizer a nota verdadeira teve medo de o defraudar?
Acho que éramos educados para não falhar. (...) Nós podíamos falhar, tínhamos compreensão. Mas escamotear que falhámos era mau. Era preciso dizer que estávamos ali prontos para ir à luta, para levar as coisas a sério."



Daniel Sampaio:

"Fale-me das pessoas da família que acha que são importantes nas vossas vidas, mais especificamente na sua vida.
Os pais, porque eram educadores muito bons. Eram educadores para a cultura, estavam sempre a fomentar o estudo, a reflexão, a leitura. As refeições ao jantar eram a discutir temas, não havia conversa mole; às vezes até era um bocadinho exagerado e protestávamos contra isso. Mas hoje vejo que foi uma coisa boa solicitar constantemente a nossa opinião sobre as coisas e saber o que estávamos a pensar. (...)
Sentiu-se na infância especialmente amado pelos seus pais?
Senti-me muito admirado. (...) Os meus pais não eram pessoas que demosntrassem um grande afecto do ponto de vista da proximidade física. Mas estamos a falar dos anos 60, 50.
E do que era ser pai e mãe então.
A distância entre gerações era enorme. (...) Não havia essas demonstrações de afecto que adoro nos pais de hoje, de andarem com os filhos pendurados.
Mas admiração é diferente de expressão de amor. Isso levanta uma questão interessante: perceber se podia falhar e se tinha medo de defraudar as expectativas que tinham em si.
Claro que sim, os meus pais não admitiam fracasso em nenhum campo. Não se podia falhar nos estudos, nas horas, não se podia falhar sequer nos namoros. Tínhamos de ser muito responsáveis com as raparigas.
Não as engravidar - é disso que estamos a falar?
Sim, respeitá-las como pessoas, não andar a saltar de umas para as outras. A educação era muito séria e exigente. Mas disso estou extremamente grato. Não chego atrasado a lado nenhum, nunca falto ao hospital. (...) Faltar à escola porque se tem uma dor de cabeça? Tomávamos uma aspirina e íamos às aulas. Nunca nos desculpávamos, nunca dissemos que não podíamos ir porque estavamos cansados. Os nossos pais não diziam para sermos os melhores, diziam para fazermos o melhor possível. E quando se faz o melhor de que se é capaz, às vezes é-se o melhor."

terça-feira, 24 de agosto de 2010

ser-se velho

"um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas novas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. "

valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis, p, 41
Num blogue sobre educação e livros, não é descabido falar da velhice. Pensei duas vezes antes de copiar esta citação. Acabei concluindo que o que muitas vezes falta é falar-se da velhice aos jovens. valter hugo mãe (e, sim, é mesmo assim sem as maiúsculas que ele escreve, tanto o nome como os livros), pela voz de um narrador de 84 anos, fala-nos desta experiência. Estou a ler e recomendo.
Ana Soares

domingo, 22 de agosto de 2010

O ano lectivo pode começar sem estatuto do aluno

O Ministério da Educação está descansado, os directores das escolas (e por consequência, os professores) é que não...
BW

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sarkozy expulsa ciganos de França



Não são de origem búlgara nem romena, mas fazem parte da banda sonora com que os meus filhos cresceram. Lembrei-me de O Tempo dos Ciganos por causa da decisão de Sarkozy de expulsar cidadãos da UE de França. Face à notícia, depois da tentativa de contextualizar a coisa, acabámos por dizer qualquer coisa como: "É um pequeno Hitler, a repetir os mesmos erros e nós impávidos."
BW

A tabacaria a propósito de A máquina de fazer espanhóis

A leitura de A máquina de fazer espanhóis do valter hugo mãe, de que vos falarei em breve, levou-me à tabacaria do Álvaro de Campos.
Aqui fica.

Ana Soares
    TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fecho das escolas do 1.º ciclo

Continuo a olhar para esta medida como uma boa opção, não em nome do que se poupa, mas em nome das crianças.
Não é melhor para elas ter melhores recursos, uma biblioteca, um anfiteatro, um ginásio, quem sabe, uma pisicina? Fica a dezenas de quilómetros de casa, paciência. Quantas famílias não vivem na periferia das grandes cidades e levam os seus filhos, todas as manhãs, para as escolas da capital do país ou do distrito? O Estado está a fazer com estas crianças o que os pais fazem porque querem um futuro melhor para os seus filhos.
A escola da aldeia é melhor porque se conhece toda a gente, vai-se comer a casa, vai-se a pé para a escola, a vó vai lá buscar? É verdade. Mas estar numa turma com meninos de todos os anos de escolaridade, com o mesmo professor o dia inteiro não é desvantajoso para estas crianças? É. (Lembro-me sempre de uma foto do PÚBLICO de umas crianças sujas, de faces rosadas, de camisolas de lã e sobretudo vestido, junto à salamandra montada na sala de aula, num daqueles invernos muito frios, numa aldeia da Beira Alta e de pensar nas disparidades que ainda se vivem no país.).
Fechar a escola é fechar a aldeia? Não necessariamente, a escola do plano centenário pode ser convertida em centro de dia para os mais velhos, associação de música, loja de artesanato local, restaurante de comida regional... A escola pode ganhar vida e trazer mais vida para a terra.
Fechar a escola é empurrar os mais novos para o litoral? Talvez, mas se não forem agora, antes dos dez anos, irão depois. Não foi o fecho da escola que os empurrou, mas não haver oportunidades locais.
Pode ser mau para as crianças estar numa escola maior? Parece que sim, que nem sempre se conseguem adaptar bem, que por vezes são gozadas pelas outras da vila ou da cidade. Mas cabe aos pais exigirem que a escola esteja atenta às necessidades dos seus filhos, que os acompanhe nos primeiros tempos e, em casa, transmitir-lhes a confiança necessária para começarem o ano lectivo da melhor maneira, confiantes e sem medos. Sim, sou da aldeia, e depois?!
AGORA, o que não me parece nada bem é a menos de um mês das aulas começarem, ainda o ministério, as autarquias e as escolas estarem a discutir este assunto e, não tenho dúvidas, que o ano vai começar com alguns atrasos, pelo menos para estes meninos que não merecem.
BW

Um dragão violinista

Depois do Stilton, foi a vez de ler na praia O Dragão que queria ser violinista. Uma história encantadora sobre a descoberta da vocação e a aceitação das nossas limitações. Para os mais pequenos do 1º ciclo, especialmente adequado para os do 1º ano pelo facto do texto ser simples e as páginas não estarem muito carregadas. Mas, na verdade, a história é tão bonita que a prima de 10 anos, o padrinho e a mãe leram também!
Esta é mais uma excelente proposta da Texto, na colecção Júnior, neste caso série azul + 6 anos.

Ana Soares

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Superbactéria: onde é que já vimos este filme?

Há um ano, por esta altura, andavamos alarmados com a gripe A, o H1N1. Preocupados, compramos gel detergente, máscaras (estão lá todas, intactas, na embalagem, alguém quer?) e quando alguém espirrava ao nosso lado, entravamos em pânico. O país também aderiu ao pânico global, lançado pela OMS e toca de comprar vacinas e mais vacinas que estão por aí, milhares de euros...
Agora, há uma nova bactéria, uma superbactéria, já morreu uma pessoa na Europa. Começo a ver o filme, o pânico, as farmacêuticas a esfregar as mãos de contentes com o medo que começamos já a sentir. (Pensando bem, o melhor é ficar com as máscaras, ainda podem fazer falta...)
BW

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Dicionário de internetês

Para conseguirmos acompanhar os mails e sms dos nossos filhos convém ter um Dicionário de Internetês. Aqui fica uma proposta.

:) - alegre
:( - triste
:'( - a chorar
:8) - porquinho
:P - língua de fora
:S - Duhh
***** - Beijos
( . )( . ) - boazona, mamas
(^-^) - está lá
:'-? ) - chorar de alegria
^ F^ - feliz
B-) - feliz e de óculos
):-):-):-) - gargalhada ruidosa e grosseira
:-) - ha ha
I-) - he he
:-> - hey hey
I-D - ho ho
: -)))) - mt feliz
: ))))))) - mto mto feliz
(hmmm) ooo..:-) - pensamentos felizes
^*-*^ - retribuir sorriso
(^-^)/? ? - rindo e dizendo adeus com um lenço
:-D - rindo muito
:-)))) - rir às gargalhadas
(^-^) - rir contendo o nervosismo
\V/ - saudação vulcãnica
") - sorriso
$ - dinheiro, riqueza, massa e afins
@ t - escrevo-te um mail
+/- - mais ou menos
+ trd - mais tarde
= mente - igualmente
= - igual
1mnt - um minuto
1mmt - um momento
2 - tu
6 - cinema
7D - semana

Leia mais sobre esta nova foma de comunicar aqui.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"Os livros são espelhos:
só se vê neles o que a pessoa tem dentro."

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, p.224

domingo, 15 de agosto de 2010

"As férias dão cabo de mim"...

... É o nome da crónica do jornalista João Miguel Tavares, na revista de domingo do Correio da Manhã, que hoje escreve sobre o cansaço que é estar de férias com os filhos.
João Miguel Tavares tem "uma tese sócio-demográfico-económica" que diz que: "O pessoal trabalha pouco porque basicamente deixou de ter filhos". O jornalista tem a certeza de que se os portugueses tivessem mais filhos, seriam mais produtivos, ou seja, quando estivessem de férias com os filhos não viam a hora de voltar ao trabalho!
"Não se pode atribuir o mesmo nome [férias] à actividade praticada por uma família de cinco em Armação de Pêra e à de dois adultos saudáveis em Bora Bora.
Quando estes belos 15 dias chegarem ao fim, vou estar mais queimadinho psicologicamente do que um recém-doutorado em física nuclear e mais esgotado fisicamente do que um ciclista que tenha trepado os Alpes suíços no pino do calor."

Pois, a mim acontece-me exactamente o mesmo - o esgotamento, o cansaço, a gestão de personalidades e conflitos, quando o que queria mesmo era devorar um livro, à sombra, sem que ninguém me incomodasse - mas, apesar de tudo, não consigo imaginar as férias de outra maneira!
BW
PS: Para o sítio que está na imagem iremos nós, pais, quando os nossos filhos e os nossos netos já não precisarem de nós para os levar à praia, dar-lhes de comer, tomar conta deles, passar o creme protector, etc. É o paraíso para os bons pais que se sacrificam para lhes dar férias condignas e felizes!

Obrigada professor!

É uma iniciativa muito bonita, na qual participei há alguns meses e podia, na altura, ter feito alguma "publicidade" mas não me ocorreu, sou sincera... Às vezes, há coisas tão giras, tão "partilháveis" e passa-me completamente o óbvio que é precisamente fazer essa partilha...
Aqui fica, hoje, para quem usa o Facebook e para quem quiser contribuir com a sua experiência: Agradeça àquele professor que marcou para sempre a sua vida aqui !
BW

sábado, 14 de agosto de 2010

Caderneta de Cromos de Nuno Markl

Vai ser um sucesso!
Pelo menos para nós, os que nascemos na década de 1970, nos inícios, logo, com muito mais memória do que foram o spectrum, o cubo mágico, as cassetes, o vinil, a abelha maia, o miami vice, a samantha fox, a Bravo (em alemão), as bombocas, as cadernetas e a cola cisne num boião, com uma pequena espátula verde com que colávamos os cromos (também havia bisnagas, mas como éramos muitos lá em casa, com muitas cadernetas, a cola em boião era mais barata e durava mais tempo).

A Caderneta de Cromos, de Nuno Markl, com ilustrações de Patrícia Furtado, da editora Objectiva, além de um livro que junta os textos que Markl escreveu para as Manhãs da Comercial, é também uma caderneta. Mais informações aqui .
BW

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Cortes na educação

O objectivo, ouço dizer por aí, é não chegar aos salários dos professores. Por isso, o Ministério da Educação parece estar a fazer como as famílias portuguesas. Primeiro deixam de viajar, depois de sair à noite, de comer fora, de ir ao cinema, de comprar livros, de comprar roupa e sapatos, passam a economizar na farmácia, na mercearia, na padaria...
Para já, a tutela ainda está melhor do que muitas famílias portuguesas por isso ainda só começou a cortar nos luxos:
1. ensino especializado da música? quem disse que o país precisa de uma orquestra em cada esquina? músicos? precisamos é de engenheiros e médicos!
2. ensino à distância para os filhos dos profissionais itinerantes? mas esses não têm já as suas vidinhas asseguradas nos circos e nas feiras? quem disse que devem ter aspirações a ser diferentes dos seus pais? ou que possam, um dia melhorar os negócios dos seus pais, graças à escola?
3. formação para os professores do 1.º ciclo em ciências? mas eles não aprenderam tudo na escola superior de educação (ESE) quando eram ainda aspirantes a professores? (neste caso irrita-me saber que estes docentes não foram devidamente preparados nas ESE, de onde são originários os mesmos professores que depois são formadores dos planos de acção para a Matemática, o Português e as Ciências - andamos a pagar a dobrar, embora a formação contínua seja necessária)
4. professores bibliotecários? bibliotecas nas escolas? que extravagância! os meninos não têm tudo nos portáteis? bibliotecas, jogos...
O problema é que são os pequenos luxos que nos fazem pessoas melhores, mais abertas, mais cultas, mais generosas, mais inteligentes, mais críticas.
BW
PS: O Governo arranjou não uma mas duas equipas para decidir o que cortar na Educação. Só esta medida parece-me uma despesa.