Nas voltas e voltas dos programas e metas, reconheço que recuperar a perspectiva cronológica no ensino da nossa literatura me agradou. Todavia, ainda não consegui interiorizar e apropriar-me das propostas de obras para o projeto de leitura (sim, porque muda o programa e muda a designação. Antes, o «projeto de leitura» era denominado «contrato de leitura». Adiante).
Para os curiosos, as metas estão disponíveis aqui. Na página 29, podemos ver quais as obras para leitura «paralela» às obrigatórias na sala de aula. Assim, advogam as metas que os alunos leiam uma ou duas destas obras por ano e a partir das suas leituras desenvolvam projetos que as relacionem tematicamente com o programa ou por géneros. Na lista do 10.º ano, que transcrevo abaixo, e que é a única ainda em vigor, vejo muitos títulos que pouco agradarão aos alunos. Não encontro alguns autores que, acreditava eu, fariam inquestionavelmente parte do cânone escolar. Encontro inclusivamente livros, ainda que em outras versões, que também constam das metas do 2.º ciclo (Robinson Crusoe). Outros que estão esgotados e os alunos dificilmente encontrarão. Alguns que alunos de 14 anos não perceberão. Uns de 20 páginas apenas (Quem me dera ser Onda). Alguns truncados, com a indicação explícita da leitura de "excertos". Deixados ao critério dos alunos? Dos professores? Ao acaso?
Sinto falta de alguns grandes nomes de sempre da nossa literatura que, em harmonia, conviviam com novas gerações de autores portugueses na anterior lista da DGES , lista essa francamente "mais arejada", repleta de grandes nomes da literatura portuguesa e universal, e que deixava os alunos respirar, ir para além das «obras obrigatórias» da sala de aula, fazer descobertas e, para alguns, quem sabe, descobrir como é bom ler.
AS
Maalouf, Amin As Cruzadas Vistas pelos Árabes
Magris, Claudio Danúbio
Marco Pólo Viagens (excertos escolhidos)
Meireles, Cecília Antologia Poética (poemas escolhidos)
Moraes, Vinicius de Antologia Poética (poemas escolhidos)
Nemésio, Vitorino Vida e Obra do Infante D. Henrique
Ondjaki Os da Minha Rua
Pepetela Parábola do Cágado Velho Pérez-Reverte,
Arturo A Tábua de Flandres Petrarca Rimas (poemas escolhidos)
Poe, Edgar Allan Contos Fantásticos
Rui, Manuel Quem me dera ser Onda
Scott, Walter Ivanhoe Shakespeare,
William A Tempestade Swift,
Jonathan As Viagens de Gulliver
Telles, Lygia Fagundes Ciranda de Pedra
Virgílio Eneida (excertos escolhidos)
Zimler, Richard O Último Cabalista de Lisboa
AA.VV. Antologia do Cancioneiro Geral (poemas escolhidos)
Alves, Adalberto O Meu Coração é Árabe (poemas escolhidos)
Amado, Jorge Capitães da Areia
Anónimo Lazarilho de Tormes
Andresen, Sophia de Mello Breyner Navegações
Brandão, Raul As Ilhas Desconhecidas
Calvino, Italo As Cidades Invisíveis
Carey, Peter O Japão é um Lugar Estranho
Castro, Ferreira de A Selva Cervantes,
Miguel D. Quixote de la Mancha (excertos escolhidos)
Chatwin, Bruce Na Patagónia
Dante Alighieri A Divina Comédia (excertos escolhidos)
Defoe, Daniel Robinson Crusoé Dinis,
Júlio Serões da Província
Eco, Umberto O Nome da Rosa
Énard, Mathias Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes
Faria, Almeida O Murmúrio do Mundo: A Índia Revisitada
Ferreira, António Castro
Gedeão, António Poesia Completa (poemas escolhidos)
Homero Odisseia (excertos escolhidos)
Lispector, Clarice Contos
Lopes, Baltazar Chiquinho
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
sábado, 30 de junho de 2012
As novas metas
Já são públicas as propostas de Metas Curriculares do Ensino Básico para as diferentes disciplinas. Estão todas disponíveis aqui, na página do Governo de Portugal. Pode consultar o documento referente à disciplina de Português neste link.
Pode ler-se na página do Ministério da Educação que "as metas que agora se apresentam serão uma referência da aprendizagem essencial a realizar pelos alunos em cada disciplina, por ano de escolaridade, sendo um documento normativo de utilização obrigatória a partir do ano letivo 2013/2014. As metas terão no próximo ano letivo carácter indicativo, mas são fortemente recomendadas." (sublinhados nossos).
Até dia 23, os contributos podem ser enviados para metas.curriculares@mec.gov.pt
Tenho de fazer uma leitura mais cuidadosa do documento e, sobretudo, uma leitura menos a quente, pois, numa primeira abordagem, são já vários os motivos para ter começado o fim de semana francamente irritada:
- ao contrário do que sucede nos programas, as novas metas são definidas por anos;
- ao contrário dos programas, fala-se, neste novo documento, em domínios e não em competências;
- ao contrário do preconizado pelo programa, a designação que substitui o "Funcionamento da Língua" é "Gramática" e não o "Conhecimento Explícito da Língua".
Não digo que estas propostas não seja adequadas ou interessantes. Até acho curioso assumir-se que deve haver uma área designada por "educação literária" ou que a expressão oral e compreensão do oral podem estar (novamente) reunidas na "Oralidade".
Digo sim, que não faz sentido termos um novo programa que só este ano entra em vigor em setembro no 6º e 8º anos (e só no próximo ano entra em vigor para o 9º!) e estar já com a sensação que o mesmo está caduco.
Morto antes de nascer por completo! (Se calhar estou a exagerar e está só moribundo. Vá lá, desculpem a minha irritação)
Imagino as mães e pais que querem acompanhar os seus filhos a navegar perdidos entre livros, manuais, gramáticas que não são coerentes.
Como cidadã, irrita-me profundamente perceber que os meus impostos têm servido para financiar estas experiências que não chegam a ser implementadas por completo, nem avaliadas, para dar lugar a novas equipas e projetos.
Como professora, então, nem imaginam!!!!
Como é possível que me tenham pedido para assumir que os programas iam passar a ser de ciclo para, agora, voltarmos a ter objetivos anuais?
Passei a acreditar que, atendendo à diversidade da realidade das escolas, a proposta de ciclo serviria melhor os alunos.
Convenci outros disso.
E agora, as metas vêm destruir o trabalho de anualização que foi pedido às escolas e departamentos de Língua Portuguesa.
Vêm ainda tornar caducos e desatualizados os manuais (em vigor por 6 anos) que as famílias adquiriram o ano passado e os que vão comprar em setembro próximo, pois estes, sendo fiéis aos programas, falam em competências; conhecimento explícito da língua; atendendo à gestão intraciclo que foi permitida, podem não integrar determinado conteúdo no ano previsto e, além disso, não apresentam todos os textos das listagens anexas ao documento das metas.
Não acredito ainda que os professores se tenham de ter adaptado à Tlebs, Tlebs revista, Dicionário Terminológico. Deixaram, entretanto de poder falar em Funcionamento da Língua. Passaram a assumir que a designação "Conhecimento Explícito da Língua" servia melhor o propósito de reforçar a natureza desta área do saber linguístico.
E agora, esqueçam lá isso!!!
Afinal, "Gramática", como os nossos pais ou avós diziam, é que está bem!
Até pode estar, mas, por favor, quando vai ser dada às escolas e ensino da nossa língua estabilidade???
As escolas estão cansadas de tanta mudança, de tantos materiais divergentes na linguagem, dos alunos navegarem perdidos por gramáticas e manuais discordantes.
Choca ainda que as divergências nasçam nos próprios documentos normativos, emanados do ME: os programas e as metas.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Implementação dos Novos Programas de Português
A Portaria n.º 266/2011. D.R. n.º 177, de 14 de Setembro estabelece a entrada em vigor faseada do Novo Programa de Português:
2011/12 - 1º, 2º, 5º e 7º anos
2012/13 - 3º, 6º, 8º anos
2013/14 - 4º, 9º anos
2011/12 - 1º, 2º, 5º e 7º anos
2012/13 - 3º, 6º, 8º anos
2013/14 - 4º, 9º anos
domingo, 4 de setembro de 2011
Alterações nos programas de Português e Matemática?
Ministro da Educação, Nuno Crato, em entrevista à revista Única, fala de novas alterações nos programas de português e matemática
"A um ano de distância, o que é que acha que pode começar a ser concretizado no ano letivo 2012-13?
Vamos fazer reajustamentos nos programas fundamentais - Português e Matemática -, de forma a não criar grandes alterações nos processos. Foram estabelecidas metas pela ministra anterior; a ideia das metas é boa, mas infelizmente não foi tão longe quanto podia. E estiveram sempre balizadas por documentos que precisam de ser alterados. Há um documentos orientador de todo o ensino básico que tem de ser revogado rapidamente, que é o chamado currículo Nacional de competências essenciais, porque tem orientado de forma negativa a maneira como os programas estão a ser construídos e estão a ser interpretados. Vamos trabalhar aí e nas metas, de forma a que o osso dos programas se torne mais claro."
"A um ano de distância, o que é que acha que pode começar a ser concretizado no ano letivo 2012-13?
Vamos fazer reajustamentos nos programas fundamentais - Português e Matemática -, de forma a não criar grandes alterações nos processos. Foram estabelecidas metas pela ministra anterior; a ideia das metas é boa, mas infelizmente não foi tão longe quanto podia. E estiveram sempre balizadas por documentos que precisam de ser alterados. Há um documentos orientador de todo o ensino básico que tem de ser revogado rapidamente, que é o chamado currículo Nacional de competências essenciais, porque tem orientado de forma negativa a maneira como os programas estão a ser construídos e estão a ser interpretados. Vamos trabalhar aí e nas metas, de forma a que o osso dos programas se torne mais claro."
Revista Única, 3 de setembro de 2011
entrevista de Anabela Natário, Bárbara Simões e Henrique Monteiro
domingo, 7 de agosto de 2011
Notícias de verão?
O verão tem destas coisas... Temas que não são notícia são "repescados" das gavetas. O Público retoma uma questão relacionada com o novo programa de Português que entra em vigor para o 1º, 5º e 7º anos em setembro próximo. Sob o título" Novo programa de Português tem na base documento que Nuno Crato considera inútil", e a propósito do programa elaborado por uma equipa coordenada por Carlos Reis, ouviu Paulo Guinote, professor de História e LP no 2º ciclo; entrevistou João Costa, um dos autores da nova terminologia; conversou com uma colega do secundário. As novidades não são muitas. Retoma-se a ideia de que:
Novidade: Nuno Crato não gosta do programa. Também no anterior governo houve quem não gostasse e o tentasse pôr na gaveta. Por isso ainda não entrou em vigor.
1. vamos ter, finalmente, um novo programa;
1.1. o mesmo está de acordo com o Dicionário Terminológico (que descende da Tlebs, que surge simplificada nesta versão);
1.2. neste, a gramática passa da designação de Funcionamento da Língua para Conhecimento Explícito da Língua (CEL).
Novidade: Nuno Crato não gosta do programa. Também no anterior governo houve quem não gostasse e o tentasse pôr na gaveta. Por isso ainda não entrou em vigor.
Mas o que é verdadeiramente importante é que o ensino da língua materna precisava da mudança (desta ou outra). Os novos programas (ainda que possam não ser perfeitos) são um importante passo nesse sentido, na atualização da nomeclatura, dos textos, das tipologias textuais que devem estar nas aulas de Português do século XXI .
Por outro lado, a Tlebs continua a ser continua a ser culpabilizada pelos desaires do ensino ou pelos maus resultados dos exames (tal foi o trauma pelo qual todos passámos nos avanços e recuos da sua implementação), mas todos sabemos que o problema do nosso ensino é muito mais profundo do que apenas a utilização de uma terminologia que estava caduca.
Ana Soares
domingo, 3 de julho de 2011
Os novos programas de Português
Perguntava um(a) leitor(a) o que penso sobre os Novos Programas. Manifestava a sua preocupação pelo facto de pressentir que o mesmo pode não ir ao encontro da realidade dos seus alunos, dos piores do país em termos de resultados, abandono escolar, etc, dizia.
Numa primeira leitura, também eu estava algo céptica em relação aos novos programas. Depois de os conhecer melhor e de os trabalhar, concluí que os mesmos apresentam, efectivamente, inúmeras potencialidades.
O facto de aumentar o leque de tipos de texto que a aula de língua materna passa a "oferecer" aos alunos é disso um exemplo. Não retirando o protagonismo que o texto literário merece, pelas inúmeras potencialidades que sempre lhe foram reconhecidas no âmbito do desenvolvimento de competências linguísticas, o que é um facto é que a escola também deve potenciar competências de leitura e interpretação de outros tipos de texto. E este programa propõe isso mesmo. E isso é importante para todos os "tipos de alunos". Sobretudo para os alunos em risco de abandono e de insucesso.
Por outro lado, no domínio do CEL (conhecimento explícito da língua), reconheço que muitos conteúdos são quase "antecipados". Se essa introdução for feita com bom senso, respeitando o programa, reconhecendo que o mais importante é a apreeensão dos conceitos, o saber fazer, creio que também aqui o novo programa poderá ser uma mais valia para a aprendizagem da língua materna. Seguindo este raciocínio, ouvi um dos autores dos novos programas defender o mesmo tipo de ideias para a Leitura, conforme eu própria também defendi aqui.
No entanto, tenho de reconhecer que temo que os novos programas e a sua filosofia, enquadrados na actual componente lectiva e respectiva carga horária, não sejam plenamente exequíveis, como também já aqui discutimos. Imagino que nas escolas se desvalorizem as actividades do domínio do oral. As mesmas tomam muito tempo das aulas, pela dinâmica a que obrigam, e, por outro lado, são as menos valorizadas pela avaliação externa. São, portanto, as que mais facilmente se podem deixar cair... Não defendo isto, claro. Mas acredito que venha a ser uma possibilidade nas escolas.
Ana Soares
Ana Soares
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Ler nas aulas de Língua Portuguesa
Numa acção promovida pela Texto Editores, tive oportunidade de ouvir Joaquim Segura, coautor dos Novos programas de Português do Ensino Básico, apresentar algumas linhas de leitura do referido documento. Das mesmas, destaco a chamada de atenção para o risco da escola estar a privilegiar actividades de leitura em detrimento da apropriação e fruição dos textos, nomeadamente dos textos literários. Concordei em absoluto.
Na aula de Português pode e deve ler-se. Não apenas para treinar técnicas de leitura e análise, mas também para estimular o gosto pela leitura. E esse gosto nem sempre é estimulado quando os textos são "afogados" em questionários infindáveis.
Que também existam nas aulas momentos de leitura. Que a escola, e em particular a aula de língua materna, proporcione momentos de encontro com as palavras e com os textos.
Ana Soares
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Português ou Língua Portuguesa?
Não vale a pena discutir qual a designação mais adequada ou da qual mais gostamos. O que é um facto é que a disciplina de língua materna nas nossas escolas, no Ensino Básico e a partir de Setembro próximo, passa a ter um programa com a designação de Português. Esta é já a designação da disciplina no ensino secundário. E, de facto, não faz sentido algum que até ao nono ano tenhamos uma designação e depois outra.
Ana Soares
sábado, 11 de dezembro de 2010
Ainda o Estudo Acompanhado
Aguardam-se esclarecimentos sobre a notícia do post da Bárbara.
Ana Soares
Pessoalmente, não sei ainda se aquelas são boas notícias, pois no dia três do corrente mês parecia que o Estudo Acompanhado tinha acabado.
Agora temos uma notícia que nos diz que este é obrigatoriamente para a disciplina de Matemática (pelos vistos deu-se a ressurreição desta área disciplinar!). Depois, a mesma notícia diz que as escolas podem escolher e decidir se as referidas horas, afinal, são para o Português ou para as ciências.
As potenciais boas notícias são, efectivamente, a consciência de que é preciso investir no ensino da nossa língua materna e da matemática.
Não esqueçamos que no próximo ano entram em vigor novos programas do básico para estas duas disciplinas e, nos dois casos, os programas foram feitas para mais do que a actual carga lectiva...
Além disso, não esqueçamos também que estes são os dois domínios do saber responsáveis pelo sucesso dos alunos em todos os outros.
Por último, não esqueçamos que, apesar dos resultados do Pisa, os nossos resultados nacionais ainda deixam muito a desejar.
Manifesto desde já a minha curiosidade relativamente à outra novidade da notícia: as tutorias digitais, nomeadamente na área do Português. Como? Quem? Quando?
Acabo como comecei: aguardam-se esclarecimentos para perceber se estas são, efectivamente, boas notícias.
Ana Soares
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Novo Programa de Língua Portuguesa
Afinal ainda não temos as metas, mas temos já a confirmação de que no próximo ano - 2011/12 - teremos novos programas, nova ortografia e novos manuais nas escolas. Até lá, os professores de Língua Portuguesa terão nos seus horários uma redução de duas horas na componente não lectiva a fim de preparar a implementação do Novo Programa de Língua Portuguesa (NPLP).
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
A Ministra da Educação em entrevista
Neste link podemos acompanhar um excerto da entrevista da Senhora Ministra da Educação ao jornal Público. O mesmo versa sobre as metas - da Língua Portuguesa e Matemática - e o concurso extraordinário para os docentes. Com alguns exemplos práticos, explicando às jornalistas e professores o que é parafrasear. Sem grandes novidades. Ainda assim, vale a pena ver. Esperemos pela entrevista na integra.
Ana Soares
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Metas
A notícia do Público é clara: as metas de aprendizagem para o ensino básico, ainda que em fase experimental, podem ser adoptadas pelos docentes. A partir de dia 15, as mesmas estarão disponíveis no site da DGIDC. Talvez com as mesmas se perceba o que vai acontecer aos Novos Programas de Língua Portuguesa - homologados, mas suspensos...
Em Outubro, serão dez as escolas a adoptar as metas oficialmente.
Ana Soares
terça-feira, 29 de junho de 2010
O Ensino do Português - III - A terminologia linguística
Discordo ainda da forma como Maria do Carmo Vieira, no livro O Ensino do Português, desvaloriza a terminologia linguística. A mesma teve um longo e conturbado processo de implementação. Sem dúvida. E isso, a meu ver, é um tema susceptível de críticas. No entanto, a existência de uma terminologia uniformizada e actualizada era um urgência. É ainda claro que há muito para fazer no que diz respeito ao ensino do português: formação inicial e contínua dos docentes; implementação de novos programas de raiz, entenda-se do 1º ciclo em diante e não começando pelo secundário; entrada em vigor da nova nomenclatura de forma serena e ponderada; preparação da entrada em vigor do novo acordo ortográfico. Algumas das áreas que a Maria do Carmo Vieira critica, a meu ver, não são, agora, as mais pertinentes; noutros casos, discordo mesmo da perspectiva. Destaco, agora, alguns dos aspectos apresentados e com os quais concordo. Também defendo o cânone literário escolar, ideia subjacente a algumas das observações e críticas que autora tece. Creio que nos Novos Programas de Língua Portuguesa – que entretanto foram suspensos - a substituição de algumas obras clássicas obrigatórias por obras do plano Nacional de Leitura (PLN) não terá sido a melhor medida. Não por que me oponha ao PNL ou ache que as obras do mesmo não devam entrar na sala de aula, mas por considerar que, ainda assim, algumas obras essenciais deverão ser recomendadas, se não mesmo obrigatórias, em todos os ciclos. Concordo ainda com as críticas que faz à qualidade, ou melhor ausência da mesma, em alguns manuais e textos seleccionados por estes. Espero que a acreditação dos manuais venha a pôr termo a esta situação e que a qualidade dos materiais que são colocados à disposição de professores e alunos melhore. Concluo dizendo que é sempre bom reflectir sobre o Ensino da nossa língua. Maria do Carmo Vieira proporciona isso. Ainda que me pareça que se algumas ideias estão fora do tempo.
Ana Soares
domingo, 27 de junho de 2010
Ensaio: O Ensino do Português
A Fundação Francisco Manuel dos Santos, à qual já aqui nos referimos, editou um primeiro livro – colecção Ensaios da Fundação. A sua autora é a professora Maria do Carmo Vieira e intitula-se O Ensino do Português. Não posso deixar de comentar o livro, nomeadamente algumas das observações da colega, cujo trabalho e dedicação à causa da Língua Portuguesa admiro. Todavia, a visão que a mesma tem defendido em múltiplas circunstâncias e que esta obra reúne afigura-se-me como desconcertante.Maria do Carmo Vieira faz a apologia do texto literário e do ensino pela arte. Na teoria, estou de acordo. Na prática, quanto ao ensino da literatura, estou de acordo. Discordo é da forma talvez extremista como se apresenta contra a introdução de outros textos no espaço da sala de aula de língua materna. Recordo que os programas são para todos! E este todos inclui os alunos que não sabem ler rótulos ou a programação da TV! Podemos achar mal esta no programa de Português, mas o mal do país, a iliteracia, não é apenas a falta de conhecimento da literatura.
Por outro lado, não me parece que a escola, de uma maneira geral, seja a mesma e a aula de Português, em particular, possa decorrer como antigamente. As Tic, os quadros electrónicos, os computadores, as tecnologias entraram na vida dos pais, professores, escolas, alunos e estão a mudar o mundo. A escola tem, necessariamente, de se adaptar.
Ana Soares
Ps - as primeiras páginas do livro estão disponíveis aqui. Bastas clicar em saber mais sobre o ensaio.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Novos programas em experimentação
São mais de 800 escolas as que já estão a implementar o novo programa, afirmou João Costa ao Público. No ano passado foram formados 74 professores formadores, responsáveis pelo trabalho com 1400 docentes, que estão a fazer formação contínua. "A cada um destes professores foi pedido que trabalhe os novos programas com os colegas das escolas onde leccionam: é o chamado trabalho colaborativo, cuja aplicação está a ser acompanhada pelas direcções regionais de Educação.".
Guiões de implementação dos programas são material que, entretanto, está já a ser produzido e experimentado nas 878 escolas que aderiram ao projecto. O ministério espera em breve construir um sítio na Internet onde os professores possam aceder às boas práticas, elaboradas pelos docentes das escolas que estão já a trabalhar os novos programas.
Se tudo se concretizar, em 2011/12 vamos ter um lectivo em cheio: metas de aprendizagem para o ensino básico; novos programas de Língua Portuguesa; novo acordo ortográfico nas escolas.
Moral da história: Os programas vão sofrer "ajustes"; a formação continua; as escolas preparam a implementação dos programas. Parece que nada muda, segundo a notícia. Afinal, a suspensão dos Novos Programas de Língua Portuguesa é apenas um adiamento?
Independentemente da minha opinião sobre a primeira versão da TLEBS, ela foi lei. Foi suspensa. O programa foi homologado. Foi suspenso ou adiado, como lhe queiram chamar. Agora, é ver para crer.
Entretanto, os sindicatos convocam greve para o pxóximo dia 4. O primeiro sinal público do descontentamento dos docentes.
Ana Soares
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Reorganização Curricular do Ensino Básico
Ministra da Educação, Isabel Alçada, em entrevista
Vai reduzir o tempo das aulas?
Entrevista de Ana Soromenho Martins e Isabel Leiria
Revista Única, 20/02/2010
"Também quer reorganizar os currículos do ensino básico. Os alunos chegam a ter 13 cadeiras. Vai acabar com algumas disciplinas?
Nas áreas não curriculares, como Educação para a Cidadania, Estudo Acompanhado e Área de Projecto, pode haver uma absorção. Há uma equipa a trabalhar numa proposta. Mas, para além da grelha curricular, podemos mexer na gestão do tempo. Estamos a analisar as vantagens e incovenientes de ter aulas de 90 minutos. É uma matéria que, no quadro da maior autonomia de decisão das escolas, pode ser reequacionada.
Vai reduzir o tempo das aulas?
Tenho colocado esta questão nas reuniões com os directores. Alguns acham óptimo haver blocos de 90 minutos, outros preferiam de outra forma. Temos de pondderar em função da sensibilidade das pessoas que estão nas escolas."
Entrevista de Ana Soromenho Martins e Isabel Leiria
Revista Única, 20/02/2010
Entrada em vigor dos Novos Programas de Língua Portuguesa em 2011
Continuamos a acompanhar a saga da suspensão dos Novos Programas de Língua Portuguesa.
As mais recentes notícias indicam que os Novos Programas de Língua Portuguesa entram em vigor já em 2010 em algumas escolas (quais?), a título experimental. (Isto quer dizer que os programas vão estar "revistos" até Setembro? Ou entram em vigor os "actuais" e a revisão faz-se em função da avaliação da sua aplicação?)
No ano lectivo seguinte, 2011-12, a sua aplicação será alargada às restantes escolas.
Inês Sim-Sim é a cara das metas de aprendizagem do ensino básico para o Português (aquelas que terão sido o motivo da suspensão dos Novos Programas) e em declarações ao Público na edição de hoje tranquiliza os professores (?!?) afirmando que os programas sofrerão poucas alterações: “Vai haver pequenas adaptações. Se houver alterações serão pontuais”, assegura e responsável pela formação contínua de professores do 1.º ciclo para o ensino do Português (se houver alterações? Pontuais?!?).
A boa comunicação entre o ME e os docentes é essencial para um bom clima nas escolas. Todos querem ver os professores envolvidos, motivados, participantes. Mas como pode isso acontecer quando informações como as que aqui referimos vão surgindo avulsas, imprecisas, pouco claras e não "oficialmente"??
Quanto à situação presente gerada, como por exemplo a formação que já está a decorrer, a especialista da Escola Superior de Educação de Lisboa afirma ainda que “nada se perde”. “É muito limitado dizer que a formação foi só para os novos programas (mas a formação, por exemplo na página da DGIDC, tem essa designação). A formação ajuda às mudanças nas práticas de ensino. Nada disto é deitado ao lixo”. Quanto aos manuais “não são esses que ensinam os professores”, afirma. Pois.
Estamos esclarecidos!
Estamos esclarecidos!
Ana Soares
PS - Confirma-se que os programas de Matemática se mantêm. A autora deste programa, Lurdes Serrazina, é a mesma que é responsável pela definição das metas.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Suspensão do programa de português: possíveis causas
Especula-se na blogosfera sobre os motivos da suspensão do programa de língua portuguesa.
Aqui ficam mais "achas para a fogueira"; intuições que vão para além da ideia das "metas de aprendizagem" referidas:
- anualização do programa, nomeadamente no que diz respeito à distribuição dos conteúdos do Conhecimento Explícito da Língua (motivo de discórdia desde a sua concepção e que levou à mudança da própria equipa durante a elaboração do mesmo);
- Plano Nacional de Leitura.
Ana Soares
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Novos Programas de Língua Portuguesa adiados
"No próximo ano lectivo já não entram em vigor os programas de Língua Portuguesa dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos. O Ministério da Educação decidiu adiar"Os Programas de Português do Básico ficam adiados, suspensos, não entram em vigor em Setembro próximo, como estava previsto!
Depois do choque, mas ainda a quente, aqui fica, então, a minha indignação perante a notícia hoje avançada pelo PÚBLICO: suspensão dos Novos Programas de Língua Portuguesa.
Aqui ficam as minhas primeiras reacções como autora, formadora, professora, mãe e cidadã.
Vamos por partes.
1. Como autora
Horas infindas de trabalho, pesquisa, adaptação, revisão. Um manual pronto. Daqui a três meses estaria nas mãos dos professores. Em Setembro nas dos alunos. Afinal, não é para sair.
2. Como formadora
Esta semana em Lisboa, na anterior no Porto. Como operacionalizar o novo programa, que opções, escolhas, caminhos? Vender um peixe que não era meu; um programa que primeiro estranhei, mas depois aceitei.
3. Como professora
Expectativas criadas, a escola em rebuliço. Formações agendadas para o departamento de Língua Portuguesa. Horas de leitura, reuniões de departamento. Tudo para estarmos a postos. Tudo para nada. Mais uma vez.
4. Como mãe
Que sistema é este? Que esperar dos professores dos meus filhos? Que estabilidade lhes oferece o sistema? De reforma em reforma, de terminologia em terminologia, de programa em programa... Na deriva ortográfica.
5. Como cidadã
Quanto dos meus impostos foi gasto neste longo processo de revisão (recordo que a mesma começou a ser preparada em 2007)? Quanto custou o NP? Quanto foi gasto na formação de formadores? Na formação dos professores? Paulo Feytor Pinto da APP fala em 900 professores que frequentaram formações. Somem-se agora todos os que frequentaram as que foram promovidas pelas editoras. Não foi o ME que convidou esta equipa para elaborar os Novos Programas? Não colheram eles consenso científico e não foram eles preparados ao longo de vários anos (com a Conferência Internacional da Língua Portuguesa, em 2007, seminários, um período de discussão pública aberto a todos os docentes, etc)?
Enfim, sem mais palavras. Por agora.
Ana Soares
PS - Reconheço a dificuldade que a anualização do programa pode (podia) levantar numa primeira fase. Mas seria isso motivo para deitar abaixo todo o investimento humano e económico que foi feito? Não podíamos ter umas OGP (orientações gerais do programa), à boa velha maneira?
PS 1 - Os Novos Programas de Matemática ficam...
PS 1 - Os Novos Programas de Matemática ficam...
PS 2 - "O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado", diz o blog onde encontrei a imagem que ilustra o post. É assim que estou hoje.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Menos disciplinas para alunos do Básico
Boas notícias, creio eu, para alunos, professores e pais: os alunos do básico vão ter menos disciplinas (apesar do número de horas se manter), anuncia o PÚBLICO.
Maior concentração e possibilidade de aprofundamento de competências será, certamente, o resultado desejado. Não sabemos ainda como serão estas horas distribuídas. Acredito que a Língua Portuguesa possa beneficiar desta alteração de currículo. Mas acredito acima de tudo que muitos dos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem concordam com o facto de haver muita dispersão. A mesma tem várias consequências do ponto de vista dos docentes. Nas reuniões de conselho de turma, que estão a acontecer por estes dias, por exemplo, são muitos os professores, podendo desta forma estar-se a dificultar uma análise muito aprofundada e cuidada da situação de cada aluno. Por outro lado, alguns docentes só têm um tempo semanal com os alunos e nem sempre conseguem desenvolver o seu trabalho com a qualidade desejada pelo simples facto de só os verem uma vez por semana (e se têm o "azar" de apanhar um feriado podem estar quinze dias sem ver as turmas).
Quanto aos alunos, esta será, certamente, mais uma oportunidade para que se possam concentrar nos domínios essenciais desta fase da sua formação.
Para os pais, desejo que esta diminuição seja facilitadora do acompanhamento dos seus educandos.
Ana Soares
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